Patrícia Baptista Silveira.
Aos oito anos Patrícia teve sua vida modificada por um acidente, mas é decidida e nunca desiste do que quer.
Inserida em (03/03/2006)
Repórter: Glauce Tiago
Foto: Arquivo pessoal
Patrícia Baptista Silveira,
36 anos é natural do Uruguai e hoje mora em Estância Velha - RS. Aos oito anos de idade contraiu meningite e como o caso se agravou foi transferida
para Porto Alegre. No percurso a ambulância sofreu um acidente e Patrícia teve a cabeça atingida pelo tubo de oxigênio causando um traumatismo
crânio-encefálico. A batida deixou seqüelas na parte motora e na voz, mas como ela mesma diz isso nada a impede que ela fale até pelas orelhas! Seu
jeito simples e alegre foi se revelando aos poucos nessa conversa. Com seu jeito cativante e meigo Patrícia me contou sobre sua vida.
Fale um pouco sobre sua deficiência e as mudanças que aconteceram na sua vida depois do acidente?
Quando eu tinha 8 anos de idade contraí meningite e como meu quadro se agravava resolveram me transferir pra Porto Alegre. No caminho um idiota passou
o sinal fechado e cortou a frente da ambulância. Ela capotou e o tubo de oxigênio bateu na minha cabeça. Tive traumatismo crânio-encefálico, que
comprometeu a parte locomotora e afetou um pouco a fala. A batida foi no hemisfério direito do cérebro, por isso meu lado esquerdo é um pouco mais
afetado, mas falo até pelas orelhas (risos).
Tudo mudou depois do acidente. Tive minha infância interrompida. Antes minha rotina era escola e brincar. Depois passou a ser médicos, hospitais,
curandeiros e assistir TV. Não sou tetra, mas sou tão dependente quanto.
Como foram seus estudos?
Depois de 9 anos sem estudar voltei à escola. Já estava com 17 anos e entrei na quarta série do ensino fundamental, numa época que nem se pensava em
inclusão escolar. Nem por isso eu tive tantos problemas. Foi uma época da minha vida muito legal. Todos os professores e colegas me adoravam. Por ser
mais velha e por ter estudado um pouco em casa tudo era muito fácil pra mim e todo mundo queria fazer os trabalhos comigo.
Eu demorei a voltar à escola por falta de interesse da família. Diziam sempre "ela ñ precisa estudar". Quando minha professora particular não pode vir
mais fiquei muito deprimida. Então minha avó foi pedir que eu pudesse freqüentar minha antiga escola. Entrei como ouvinte (aluno que assiste aula, mas
não faz prova), mas a adaptação foi tão fácil que logo pude me matricular.
Eu ficava muito magoada por minha família achar que eu não precisava estudar. Principalmente quando eu via meus irmãos se preparando pra voltar à
escola todos os anos. A sensação de voltar para escola foi maravilhosa, mas deu um medinho de não conseguir. O problema na voz era o que mais
atrapalhava no início, mas eu sentava com um coleguinha que me entendia com facilidade então ele traduzia (risos). Eu adorava ir à escola. Os colegas
até me ajudavam nas pesquisas (naquele tempo não tinha internet). A moça que me levava copiava a matéria e eu fazia os exercícios e as provas. Foi
assim que concluí o primeiro grau e parei aí.
Qual foi o mais obstáculo que você já enfrentou e o que você conseguiu fazer com mais facilidade?
O maior obstáculo que eu tive que enfrentar na vida foi o preconceito. E esse eu tenho que vencer a cada minuto da minha vida. Nada na minha vida é
fácil. Até pra mexer um dedo eu preciso me concentrar, pra falar e etc. As únicas coisas que faço sem esforço são respirar e pensar (risos).
Como é a relação com sua família?
Minha relação com minha família é razoável. Houve épocas que era muito ruim. Agora está melhor. Nunca aceitei ser tratada como uma ‘florzinha de
estufa’. Sempre briguei muito com minha mãe. Eu procuro não me aprofundar nos assuntos. Falamos o necessário, coisas do dia-a-dia, sobre a empregada
ou sobre comida. Minha mãe mora na casa ao lado e eu moro com minha avó. Quando eu era criança ficava magoada porque meus irmãos moravam com minha mãe
e eu não. Hoje prefiro assim. Meu pai mora em outra cidade, então não temos muito contato. Minha avó é uma pessoa muito durona, exige educação rígida.
Agora está velhinha, tem câncer e glaucoma, mas me criou e me ama muito apesar de ser chatinha às vezes (risos). Ela me criou desde que vim do Uruguai
onde nasci. Amo-a como uma mãe. Dependo muito dela fisicamente. Financeiramente um pouco menos. Faço milagre com o benefício que recebo do INSS.
Minha família pode ser considerada de classe média. Não temos luxo, mas vivemos bem. Mas, se tivesse grana sobrando concluiria meus estudos. Nunca me
faltou conforto. Sempre se esforçaram pra me dar tudo que eu precisava ou queria. Nunca tive algum desejo material que não tivesse sido realizado.
Mas, senti falta de mais carinho, apoio, incentivo e respeito. Hoje já não sinto mais tanta falta disso.
Como é sua convivência com os amigos?
Tenho poucos amigos. Na adolescência isso me machucava, pois via meus irmãos cheios de amigos, namoradinhas e eu sempre sozinha. Hoje minhas melhores
amigas são a ex-noiva e a ex-mulher do meu irmão (risos). Só complica um pouco na hora de sairmos, pois temos que ter um carro ou grana pro táxi. Por
isso saio pouco. Mas, quem é amigo de verdade não se importa se você é verde com bolinhas roxas, gordo, magro, vesgo ou deficiente. Nada atrapalha uma
amizade sincera.
Como o amor se manifesta na sua vida?
O amor na minha vida se resume numa letra de música que diz mais ou menos assim "eu encontrei o amor... eu encontrei o amor... e foi... como quebrar
os dentes... o amor foi um acidente... foi cruel e inconseqüente... o amor.... foi como bater de frente... o amor foi como um acidente e ninguém se
salvou... eu encontrei o amor... e olha o que restou?” Ás vezes me sinto uma idiota por não conseguir desistir de procurar um amor. E muitas vezes
meto os pés pelas mãos, me ferro, mas não desisto.
Qual é seu maior desejo?
Meu desejo é conseguir o máximo de independência possível e um novo namorado, é claro (risos)! O que me motiva é a minha vontade. Sou muito
persistente. Quando quero, QUERO!
A coluna Nossa Gente é uma publicação Porta de Acesso.
Coordenação: Mirela Goi.
Jornalista responsável: Glauce Tiago - MTB:
Edição: Glauce Tiago.
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