Clara Judite Mendlovitz Albino.
Clara Judite Mendlovitz Albino conta um pouco de sua história
como mãe de uma pessoa especial.
Inserida em (15/06/2007).
Repórter: Glauce Tiago.
Fotos: Arquivo pessoal.

Depois de ter experimentado as alegrias da maternidade por duas vezes, Clara Judite Mendlovitz Albino, mineira, hoje com 59 anos, engravidou de seu terceiro filho. Era uma menina e se chamava Carla. Mas, em decorrência de algumas complicações na gravidez, Carla só sobreviveu por 17 horas. Clara sentiu toda dor de uma mãe que perde um filho querido. Porém, quatro anos depois ela teve uma segunda chance. Era a vez de Ricardo Albino vir ao mundo e provar que, apesar de todas as dificuldades, a fé e o amor podem sustentar uma vida. Ricardo é jornalista, tem 29 anos, é diplégico, tem visão sub-normal, é um profissional brilhante e leva a vida como qualquer pessoa. Com todo orgulho que uma mãe pode ter, Clara nos conta os desafios de ter um filho especial.
1. Qual é o maior desafio em ser mãe de um portador de deficiência?
Acho que ter um filho com deficiência é o maior premio que Deus pode dar a uma mãe. É o sinal de que ele está nos vendo na terra e que estamos fazendo parte da missão a nós confiada. E essa missão é exatamente encaminhar nossos filhos pela vida, sabendo ensiná-los a superar as dificuldades e vencer os preconceitos que o dia-a-dia possa colocá-los, mostrando sempre o quanto ele é capaz. O meu maior desafio é superar o preconceito da sociedade e mostrar a todos que meu filho é tão importante quanto qualquer outro, ou às vezes até melhor. Penso que Deus acha que temos competência para cumprir esta missão, que não é fácil, mas também tem suas recompensas.
2. Existe o medo de um dia não poder continuar cuidando do filho?
Medo nós sempre temos, mas não sou eterna e ele tem que aprender que um dia ele terá que viver a vida dele sem contar comigo.
3. Que tipo de incentivo você dá para que ele tenha uma vida normal?
Sempre que posso, deixo que ele saia com os irmãos, com um tio, que procura sempre levá-lo para passear e com os primos. Saio sempre com ele e mostro quais as dificuldades ele pode encontrar. Espero que ele cada dia vença mais, torne-se um jornalista famoso, tenha seu espaço na vida e no mundo.
4. Como você se sente ao ver as vitórias dele?
Cada vitória dele é uma vitória minha também. Vibro com todas. Quando ele estava na escola, cada fim de ano era um choro de alegria, pois era mais uma vitória. Quando passou no vestibular, a casa ficou pequena para mim, a felicidade era muita, mas também tinha o medo do que ele iria encontrar no mundo novo. Foi mais uma grande vitória que acompanhei de pertinho, cada dia, cada nota, cada tristeza, mas vencemos. No dia da formatura, quando vi Ricardo sendo aplaudido de pé por todos seus colegas que gritavam seu nome, a minha felicidade não teve explicação. Hoje vibro com cada matéria que ele escreve, com cada matéria que sai publicada em alguma revista, ou na internet. Esta felicidade não tem preço. Agradeço a Deus todos os dias por ter este filho querido.
5. Qual foi a situação mais difícil que você passou para tentar ajudá-lo?
A pior barreira que enfrentamos foram nas escolas, principalmente quando era pequeno. Por incrível que pareça, estas barreiras foram impostas sempre por professores que rejeitavam ter em sala um aluno especial. Sempre que isto acontecia, a gente mudava de escola e tentava mostrar a ele que ali seria melhor, que as pessoas não estavam acostumadas com crianças com problemas, mas que ele era uma criança especial e nós iríamos encontrar para ele uma escola onde os professores soubessem dar valor à pessoa que ele era, e assim aconteceu. Superamos as barreiras, estudou em Escola Especial, Escola Municipal, enfrentou vestibular como todo mundo e fez o curso do sonho dele. Na faculdade, sempre pôde contar com colegas que cooperavam com ele e assim venceu.
6. Qual foi seu melhor aprendizado com ele?

Aprendi com ele que podemos ter persistência no que fazemos e queremos. Aprendi a ter muita alegria e compreender as pessoas. Pois o Ricardo, apesar de tudo, é um rapaz feliz, alegre, gosta de sair, de escrever, de ouvir música, as quais ele tem todas na cabeça.
Minha gravidez foi meio tumultuada, quando estava no terceiro mês tive um princípio de aborto, fiquei uma semana de repouso e tudo melhorou. Trabalhava fora, o dia todo, saia antes das sete e só voltava às 18 horas. Já tinha dois filhos e nem sempre tinha empregada. Quando estava entrando no quinto mês, o médico me pediu um ultra-som, coisa que na época era muito difícil de se fazer, apenas um hospital aqui em BH fazia e era particular. O médico achava que podia ter algum problema com o neném, pois ele não estava escutado bem o coração dele. Fiz o ultra-som e o médico achou tudo normal. Quando estava entrando no sexto mês tive diabete gestacional. No dia em que ia começar a tomar insulina para segurar o parto pelo menos até o oitavo mês, Ricardo resolveu que queria nascer. Minha bolsa rompeu e ele nasceu no dia 14 de dezembro às 3 horas e 20 minutos. Era um bebê com o peso e tamanho maior que o esperado, mas com 5 horas de nascido começou a ter paradas respiratórias, convulsões e assim foi por 36 horas. Chegou até a ser batizado no berçário. Mas Deus, que já tinha me mandado quatro anos antes uma filha, quase que nas mesmas condições e a levou com apenas 17 horas, não quis que eu passasse novamente por aquela dor, e deixou que Ricardo sobrevivesse. Hoje eu acho que a minha filha veio só para preparar o coração do pai e também o meu para recebermos Ricardo.
Ricardo ficou no hospital por 31 dias. Quando ele nasceu pesava 1,420g e media 38cm. Ficou na estufa até o dia 31/12 e depois foi para o berçário aquecido para ganhar peso. Quando foi para casa, ele já estava com 42cm e pesava 2,130g. Parecia um sonho, mas todo cuidado era pouco. Mamava em uma “chuquinha” e eu tinha que preparar duas ou três. Nos primeiros dias que chegou em casa, teve uma diarréia que achei que teria de voltar com ele para o hospital, mas conseguimos, eu e minha sogra, conter a diarréia mudando a alimentação dele. Era muito pequeno, era difícil até de trocá-lo e dar banho. Eu que já tinha dois filhos tive quase que aprender tudo de novo.
Nesta época trabalhava fora e ainda não sabia o tamanho do problema que teria de enfrentar. Ele tinha muitas crises respiratórias, vivia tomando antibióticos. Quando ele tinha 10 meses, comecei a perceber que ele tinha um olho bem menor que o outro, e também que não firmava as pernas. Ele parecia um pedaço de pau. Falei com o pediatra dele que queria levá-lo ao ortopedista. Ele disse que estava mais preocupado com a visão que o resto, e encaminhou para um neurologista. Começamos a correr contra o tempo. Conseguimos marcar consulta com um bom oftalmologista e ele nos encaminhou para um especialista em retina. Ficamos sabendo que a retina do olho direito dele havia sido afetada pelo oxigênio da estufa, já que ele não teve os olhos vedados, e que no olho esquerdo ele tinha uma visão bem baixa.
Como todos os pais procuramos na época a maior sumidade em oftalmologia. O diagnóstico foi o mesmo, mas ele nos deixou um pouco mais esperançosos dizendo que "de criança podemos esperar tudo, até uma recuperação completa, e a medicina estava evoluindo muito e quem sabe no futuro teríamos uma resposta melhor". Assim estamos até o dia de hoje, a espera de melhora, mas nada disso impediu o Ricardo de evoluir, estudar e chegar onde está hoje.
Quando Ricardo fez dois anos, as coisas ficaram mais difíceis. Não conseguia empregada que cuidasse dele bem, o desenvolvimento estava ficando atrasado e eu por mais que corresse não dava conta de tudo. Então, em 28 de julho de 1980, depois de 14 anos e meio de trabalho resolvi optar por ser apenas mãe, cuidar da minha casa e dos meus filhos, coisa que o tempo não deixava. E assim, até hoje, não trabalho fora, cuido de tudo em casa, tenho uma empregada que já está comigo há 16 anos e que tem me ajudado muito. Cuidei de meu sogro até ele morrer, cuidei de minha sogra por 13 anos com Alzheimer, tem dois anos que ela faleceu, cuidei do meu marido com câncer, hoje ele está bem. Tive também um câncer e espero também estar curada. Cuido ainda de três netos, Luiz Felipe de 16 anos, Ana Clara que vai completar sete anos e Beatriz de dois anos, a coisa mais fofa que você pode imaginar!
O Sebastião, pai de Ricardo, sempre teve muito carinho com ele. Acho que quando perdemos a Carla, Deus nos mostrou como era difícil perder alguém que amamos. Acho que quando Ricardo nasceu e ele sentiu que poderia perdê-lo e passou a dar mais valor a cada dia de vida do Ricardo. Quando ele foi operado de câncer de intestino ele disse ao médico que o Ricardo era para ele o maior exemplo de resignação, pois adorava esportes sem nunca ter colocado o pé em uma bola. E pensando assim ele aceitou melhor a sua situação. Ele sempre o ajuda em tudo que ele precisa. Levava e buscava na escola, na faculdade, quando o Ricardo tinha que escrever muita coisa, ele escrevia enquanto ele ia apenas ditando. Acredito que Ricardo é para o pai um presente bem maior que é para mim. Não existe lição no mundo, para mim, melhor que essa.
A coluna Nossa Gente é uma publicação Porta de Acesso.
Coordenação: Mirela Goi.
Jornalista responsável: Glauce Tiago - MTB:
Edição: Glauce Tiago.
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