Criança especial precisa de educação sexual específica.
Desmistificar mitos e crendices sociais sobre a sexualidade e a deficiência é de
extrema importância
Igor Galante
SÃO JOSÉ DO RIO PRETO/SP - Se muitos pais ainda se perdem na hora de lidar com
a sexualidade dos filhos, como fazer então quando essa descoberta se dá com crianças e
adolescentes considerados especiais, dotados de variados níveis de deficiência mental?
Antes de mais nada, é preciso encarar o fato de que a sexualidade é inerente a todo ser
humano, independente de seu estado. O segredo é saber como lidar de maneira saudável com
essa realidade. Um dos mitos mais comuns é pensar que as pessoas deficientes são
assexuadas, lembra a psicóloga Maria Jaqueline Coelho Pinto, coordenadora do curso de
especialização em sexualidade da Famerp. Como sua mente é mais imatura, mais
infantil, os pais têm a ilusão de que o filho nunca deixará de ser criança, e por isso
se assustam, completa Alessandra Regina Rodrigues, psicóloga da Associação Renascer,
entidade que atende a 270 crianças, adolescentes e adultos com mútliplas deficiências.
Lá, seu trabalho é de orientar não só pais mas também outros profissionais da
associação, que depois irão repassar em sala toda orientação sexual aos alunos.
Apesar dos medos e curiosidades pelo corpo que se transforma e sente prazer se
manifestar da mesma maneira em crianças consideradas normais e as excepcionais, é
evidente que há diferenças, principalmente no modo como elas irão expressar ou
exteriorizar essas transformações. Uma criança normal tem juízo moral e vergonha,
por isso não irá, por exemplo, se masturbar em público. Já uma criança especial não
tem esse mesmo juízo, destaca Alessandra. As diferenciações ocorrem na
exteriorização da atividade sexual do jovem. Sua conduta será mais ou menos adequada
dependendo do comprometimento intelectual que ele possui, uma vez que esse déficit remete
a uma maior dificuldade na organização de seu eu, e, em conseqüência, de sua
relação com o mundo, acrescenta Jaqueline. Segundo a psicóloga Raquel Nelly Cunha,
da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), a orientação profissional
acaba sendo mais direcionada aos pais que aos filhos. Na associação, há trabalhos
constantes de orientação sexual, por meio da formação de grupos de jovens. As
atividades também costumam envolver a família.
Em Rio Preto, a Apae trabalha com 350 pessoas, de bebês a idosos excepcionais. A
orientação é voltada aos pais porque eles estando bem preparados encaram a descoberta
da sexualidade do filho numa boa, com naturalidade, e por conseqüência, o mesmo ocorre
com a criança, complementa a psicóloga da Renascer. Se os pais tentam esconder e
inibir, a criança vai querer chamar mais atenção por meio da sexualidade, deixando
esses pais ainda mais apavorados, diz. A sexualidade ainda provoca grande angústia
e ansiedade nas famílias. As primeiras manifestações são vistas com surpresa e medo,
decorrentes de idéias que a colocam como imprevisível e incontrolável, lembra
Daniela de Camargo Álvaro, psicóloga e aprimoranda do serviço de psicologia da Famerp.
A sexualidade do deficiente mental deve ser visualizada levando-se em conta que seu
déficit cognitivo lhe dificulta perceber e reagir aos estímulos internos e externos com
expressão de conduta adequada e adaptada ao ambiente que o rodeia, explica.
Jaqueline diz que os pais, por medo de lidar com os aspectos sexuais de seus filhos,
acabam, muitas vezes, deixando-os extremamente vulneráveis, física e emocionalmente,
sujeitos à exploração e com menos condições de usufruir o sexo responsavelmente. A
preocupação dos pais não deve ser acerca da permissão ou proibição da sua
sexualidade, mas sim sobre quando, como e onde devem ser manifestadas as suas atividades
sexuais, completa a psicóloga da Famerp. Por outro lado, se uma criança excepcional
consegue ser bem orientada, tanto por um profissional quanto em casa, e passa a lidar bem
com sua sexualidade, sua auto-estima tende a melhorar. Imagine um adolescente com
síndrome de Down namorando, os reflexos positivos que isso terá, desde que bem
orientado?, questiona Alessandra.
O monitoramento de um possível namoro, por exemplo, é necessário, segundo
especialistas, porque a sexualidade, em todo ser humano, é instintiva, e as crianças e
jovens especiais não têm o mesmo nível de compreensão das pessoas consideradas como
normais. De acordo com Raquel, na própria Apae já houve casos de meninas de 13, 14
anos terem mais de um filho. É preciso levar em conta que o corpo amadurece, mas a
mente não, considera o sexólogo Sérgio de Almeida, de Rio Preto. Alessandra orienta
os pais, como meio de disciplinar a sexualidade do filho excepcional, usar a técnica da
repetição. São seres humanos com lentidão de raciocínio, por isso a orientação e
os conselhos são os mesmos que se passam para uma criança normal, com a diferença de
que é preciso falar sempre, várias vezes, um, dois, até três anos, insistindo, por
exemplo, que ela pode se masturbar, mas que aprenda a fazer isso no banheiro, ensina.
Desmistificar mitos e crendices sociais sobre a sexualidade e a deficiência é de
extrema importância, uma vez que os valores paternos correspondem ao da coletividade,
argumenta Jaqueline. A maioria das deficiências não vem da deficiência
propriamente dita e sim da maneira como elas são encaradas e tratadas.
Serviço:
- Maria Jaqueline Coelho Pinto, psicóloga e coordenadora do curso de especialização em
sexualidade da Famerp, (17) 232-7795
- Daniela de Camargo Álvaro, psicóloga e aprimoranda do serviço de psicologia da Famerp,
(17) 210-5000 ramal 1215
- Alessandra Regina Rodrigues, psicóloga da Associação Renascer, (17) 218-1606
- Sérgio de Almeida, sexólogo de Rio Preto, (17) 227-5733
- Raquel Nelly Cunha, psicóloga da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae),
(17) 3216-9797
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