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Vítimas de transtornos mentais burlam regras.

Regina, 21 anos e interna do Hospital Juliano Moreira, carrega, na ponta das orelhas, do pescoço e dos lábios, a cor dos romances mais tórridos. "Uso batom, brinco, colar, tudo vermelho. Agora, estou louca por um vestido vermelho", conta. Vermelho é a cor preferida de Regina. Mas no manicômio, nenhuma boca pode encostar no vermelho dos seus colares e brincos, e nenhuma mão poderá arrancar seu futuro vestido. Lá dentro, Regina também não pode gastar o vermelho intenso e opaco que preenche seus lábios grossos. Embora os loucos não sejam deficientes - a loucura é um transtorno mental, e não um déficit cognitivo - não se poderia deixar de falar deles, que, tão comumente, também são vistos como pessoas anormais. Seja nos manicômios ou mesmo entre a própria família, a sexualidade de quem é tido como louco costuma ser encarada com uma certa esquizofrenia e muitos equívocos. Qualquer manifestação de desejo acaba virando mais um sintoma do transtorno mental, como se a vontade de se masturbar e de fazer sexo fosse um privilégio das pessoas tidas como normais. "Quando alguém entra num Hospital Psiquiátrico, tudo vira sinal da doença. Alguns loucos são amarrados só porque estão se masturbando", diz Edna Amado, assistente social do Hospital Juliano Moreira, e representante do movimento antimanicomial.

Fantasma da gravidez.

Dentro dos manicômios, o sexo costuma ser completamente proibido. "Querem que o Hospital Psiquiátrico seja um lugar onde reina a paz dos cemitérios", exaspera Edna. Então, às 21h, todo mundo tem que estar dormindo, para que não apareçam os fantasmas da gravidez nem da contaminação por doenças venéreas. A intenção de impedir a relação sexual pode até ser boa. Afinal, o transtorno mental pode mesmo causar o esquecimento do uso dos preservativos. E não há como negar que a total liberação do sexo poderia sair do controle da administração dos hospitais. Mas não seria melhor a educação sexual? Ou será que a simples proibição resolve alguma coisa?

"Conta-se a história de um casal de loucos que ficava separado por uma grade. Os dois se masturbavam um de frente para o outro, e ele passava o esperma numa folha de bananeira", diz Edna. "Eu já transei escondido", confidencia Regina. De manhã, pelos corredores do manicômio, tudo que Regina consegue é trocar alguns beijos. Mas às vezes, no silêncio da noite, o seu namoro esquenta. "Um casal de amigos faz a barreira. Depois, a gente faz a barreira para eles".

Não é de hoje que a sexualidade dos internos enlouquece os administradores e funcionários do manicômio. Em 1877, no antigo Asilo São João de Deus, a gravidez da interna Joana Virgínia causou um verdadeiro estardalhaço na cidade. Ao menos em tese, o São João de Deus era um local onde os membros do sexo masculino nem sequer se encontravam com o sexo feminino - e se Joana estava grávida, a regra fora burlada. Para se ter uma idéia, a confusão foi tanta que a cena ficou conhecida como o "escândalo de 1877". O fato caiu na boca do povo e, no final das contas, uma enfermeira, um médico adjunto, um ajudante de enfermagem não agüentaram a pressão, e renunciaram seus cargos. O diretor do Asilo na época, Demétrio Tourinho, acabou pedindo a exoneração, profundamente magoado com o ocorrido. A história de Joana foi uma espécie de bisavó do recente dramalhão mexicano de Gloria Trevi. Uma confusão tremenda por causa de uma simples gravidez, tão inocente quanto as que acontecem todos os dias.

O episódio acima é comentado e narrado na tese A prática psiquiátrica na Bahia (1874-1947), de autoria de Ronaldo Jacobina. Na tese, ele analisa que "a sexualidade subvertia a rígida moral do asilo", e "a direção assumiu o fracasso de não ter conseguido separar adequadamente os alienados pelos sexos".

Um pouco depois, a cena tragicômica se repetiu. Em 1920, calhou de outra interna ter um filho, que nasceu no Hospício São João de Deus. Mais uma vez, o diretor do estabelecimento - à época, Barreto Praguer - pediu exoneração. Além disso, dois médicos foram demitidos. Na tese, Ronaldo Jacobina interpreta a situação: Relações sexuais no hospício, sendo a gravidez de uma doente sua prova material, continuavam a ser um acontecimento altamente explosivo nessa "instituição total".

Tempos modernos.

Voltemos aos tempos modernos. De algum dos quartos do Hospital Juliano Moreira, ecoam vários gritos. É uma voz feminina. "Socorro, me ajudem!". Mas ninguém viu nada. Depois, a interna contou que havia sido abusada sexualmente por um médico, e abriu-se uma sindicância para apurar a denúncia. "O médico me disse: que absurdo! Como você dá crédito à fala de uma doente mental?", lembra Edna. No final da sindicância, ficou provado o estupro. "Descobrimos que ele tinha feito isso em outros hospitais", diz Edna. Num caso desses, quem é anormal? A quem o sexo deveria ser proibido?

"Eu não acho que sexo devia ser proibido para a gente não...", diz o interno Jair, com a fala um pouco lenta. Jair assegura que fez sexo pela primeira vez com quatro anos. Segundo a sua história, fantástica e mirabolante, ele flagrou a prima junto com o namorado, e chantageou: - Se você não fizer isso comigo, eu conto para todo mundo. Morrendo de medo do dedo-duro, a prima soltou a pérola: - Então vamos fazer neném. "Eu topei na hora".

De uma hora para outra, no meio da entrevista, Jair retira, de dentro do calção, uma Bíblia. Por entre as páginas do livro, está um papel bem amassado, todo dobradinho e emendado com durex, que ele desdobra com o maior cuidado. Há o desenho de dois corações, e a frase: "Você é como o ar que eu respiro, é como a água que eu bebo como o sal (sic) que me aquecer (sic) e como a Lua que me ilumina, por isso e muitas coisas que eu (sic) ti digo eu te amo com toda foça do meu coração". Ao ler a carta que seu amor lhe mandou, Jair fica triste, entre saudoso e apaixonado. É que ela já foi embora do manicômio. "Eu transava escondido com ela. A gente vai se casar. Eu só não liguei para ela porque não tenho cartão".

Regina também não pode telefonar para o amor de sua vida, nem tem a menor idéia de como encontrá-la. "Ela já foi para casa". Toda a paixão contida de Regina é por uma mulher que conheceu dentro do manicômio. "Eu tirei uma foto junto das flores e dei para ela. Eu amo muito ela". Sem nenhum papel fotográfico que registre a imagem de sua namorada, Regina a fotografou com a própria mente, e tem, no melhor espaço da sua cabeça, o retrato muito bem guardado. "Ela é linda. É morena, tem o cabelo castanho e cacheado".

Tudo parecia perfeito. O fato de serem duas mulheres só ajudava, porque assim elas podiam ficar na mesma ala, e era um pouco menos difícil fazer amor escondido. Até que chegou o triste dia da despedida. "Eu tive que me esconder embaixo da cama, porque ela não queria ir embora". Hoje, Regina espera sua vez de receber alta do manicômio, para sair à procura da namorada. "Tenho muita saudade dela", diz, com os olhos cheios de lágrimas. Regina sempre trata sua namorada como "ela". Mas qual é o nome dela? Pensativa, a interna pede a ajuda a um amigo. "Como é o nome dela, que eu me esqueci? Eu não consigo me lembrar!", diz, nervosa. Mas o nome é o que menos importa. Se um dia Regina se encontrar com ela, "ela" deixará de ser um pronome na terceira pessoa do singular. As duas serão "elas", no plural. Mais felizes e menos párias.

Loucura

Loucura não é deficiência, porque não se trata de déficit cognitivo, mas sim transtorno mental. Pelo conceito psiquiátrico, a loucura é a expressão não técnica que define a psicose. Nesse transtorno, que, apesar de muitos estudos, não se sabe exatamente qual a causa, o indivíduo pode enxergar uma outra realidade, diferente da compartilhada pelo resto da sociedade. Existem vários tipos de psicose, e a espécie mais comum é a esquizofrenia, que atinge cerca de 2% da população mundial. A depender do caso, o indivíduo esquizofrênico pode ver imagens que os outros não vêem, pode sentir cheiros que ninguém sente, e escutar sons inaudíveis aos ouvidos comuns.

Correio da Bahia.

Fonte: Vida e Saúde - Terra.