A SEXUALIDADE DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA FÍSICA.
Arlete Camargo de Melo Salimene.
Mestre em Serviço Social da PUC/SP e Diretora do Serviço Social da Divisão
de Medicina de
Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo.
Falar sobre
a sexualidade do portador de deficiência física implica necessariamente em abordar o
conceito sexualidade humana de forma ampla, em toda sua dimensão, ou seja, abrangendo os
aspectos físico-biológicos, socioculturais, econômicos e políticos.
Nesse contexto, a sexualidade masculina ainda se confunde com a prática "machista",
com todos os significados que este termo contém e que é tão sobejamente conhecido. A
sexualidade feminina assume ainda contornos de submissão, repressão, sob a égide da
dominação masculina que, contraditoriamente, explora o erotismo do corpo feminino em
todos os níveis, transformando-o em objeto de prazer.
A despeito das mudanças que se processam quanto à função social da mulher hoje, principalmente a
partir do seu engajamento no mercado de trabalho e, decorrente, de seu papel mais
participativo em termos de eqüidade com o homem no seio da família, permanecem ainda
resquícios da sociedade patriarcal e autoritária da sociedade fálica.
Estudos mostram que a sexualidade masculina é mais centrada nos órgãos genitais (no pênis),
diferentemente da sexualidade feminina, que é mais difusa sobre seu corpo. O corpo
predominantemente genitalizado do homem pode ser explicado em função de que este,
independentemente de classe social, foi submetido, historicamente, ao processo de produção,
foi canalizado para o trabalho.
Indícios de mudanças aparecem na classe média, na qual este modelo começou a ser rompido a
partir do questionamento das relações de gênero, provocando uma maior eqüidade no que
se refere ao direito à gratificação sexual e à valorização orgástica da mulher.
Assim, a sexualidade masculina, como instrumento de dominação e poder, é uma postura sexual
alienante. Essa alienação é parte constitutiva das sociedades que valorizam o trabalho
em detrimento do prazer, negando o próprio corpo. São formas mascaradas de repressão,
apesar da liberação sexual iniciada há três décadas com o advento da pílula
anticoncepcional e a ascensão social e política da mulher.
Esses valores atingem de modo severo os portadores de deficiência física (em conseqüência de
danos neurológicos). Estes, a despeito das disfunções sexuais presentes em diferentes níveis,
quanto à ereção, ejaculação, orgasmo e reprodução, mantêm a sua sexualidade
latente, quando entendida no seu conceito ampliado.
Há que se compreender, todavia, que, para o homem portador de deficiência física, tais limitações
acarretam o sentimento de que lhe foi tirado o essencial de sua identidade masculina,
construída culturalmente sob o significado simbólico do "poder do falo".
Conseqüentemente, tiraram desse homem o "seu poder" nas relações sociais e
interpessoais. Na mulher, o impacto da deficiência atinge a sexualidade na sua
imediaticidade, ou seja, na sua aparência. Seu corpo, objeto de erotização, apresenta
deformidades que o distanciam do modelo de "belo" e "perfeito" forjado
pela cultura "machista" e pelo marketing das sociedades capitalistas.
Este pano de fundo está implícito na manifestação da sexualidade humana e, como tal, necessita
ser aprendido e compreendido pelos profissionais da Saúde, em especial por aqueles que
atuam no processo de reabilitação dos portadores de deficiência física. É necessário
que se incorporem ações terapêuticas voltadas para a reabilitação sexual dessas
pessoas para ajudá-las a superar suas dificuldades. Assim buscamos caminhos para que
possam exercitar sua sexualidade o mais plenamente possível, com a obtenção do prazer físico
e psíquico, fatores contribuintes para sua reintegração social saudável.
Fonte: Entreamigos.
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