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FIM DO MENU   Além dos limites - 20/06/2004.

Além dos limites.

do Estado de Minas - 20/06/2004

Paralisia cerebral resulta de lesões no encéfalo em desenvolvimento e atinge sete a cada 1 mil recém-nascidos no País. Maioria dos casos decorre de asfixia neonatal.

A estudante Ana Luiza de Castro Guimarães teve paralisia cerebral logo depois do nascimento. Apaixonada pela dança, ela nunca deixou que o problema fosse um obstáculo em sua vida. 

Às terças e quartas-feiras, a estudante de psicologia Ana Luiza de Castro Guimarães, de 21 anos, deixa seus afazeres para se dedicar à paixão pela dança. E ela seria apenas mais uma, não fosse pelo fato de, logo após o nascimento, ter sofrido paralisia cerebral. Mais do que uma bailarina, a superação dos próprios limites fez dela uma pessoa vitoriosa. "Apesar da dificuldade motora, não deixei de viver e realizo cada um de meus sonhos." 

Esses mesmos sonhos ela compartilha com os outros integrantes do grupo Crepúsculo, vinculado à Associação Crepúsculo Arte e Educação sem Barreiras, do qual faz parte há cinco anos. "O grupo me ajudou a conviver com as minhas dificuldades e limites, sem fingir que não existem. Isso me fez ver que posso ser feliz mesmo com cada um deles", ensina. 

O que possibilitou a Ana Luiza chegar onde chegou foi um acompanhamento multidisciplinar intenso e diversos tratamentos feitos no início da infância, todos decisivos para que ela pudesse desfrutar de uma vida ativa. De acordo com especialistas, tratamento adequado e precoce são mesmo a melhor forma de garantir qualidade de vida aos pacientes que sofrem de paralisia cerebral. 

Como as opções de abordagem são variadas, o neuropediatra Luiz Fernando Fonseca e o ortopedista César Luiz Andrade Lima resolveram reuni-las numa publicação inédita e considerada a mais completa, lançada recentemente em Belo Horizonte. Trata-se do livro Paralisia Cerebral: Neurologia, Ortopedia e Reabilitação. 

O livro, segundo César Luiz, nasceu da necessidade de o tema ser abordado, pela primeira vez, de forma completa, envolvendo desde a complexidade de diagnóstico até as opções de tratamento e reabilitação da criança portadora da patologia. 

ESTATÍSTICA 

De acordo com Luiz Fernando, estima-se que a cada 1 mil recém-nascidos vivos com peso acima de três quilos e tempo completo de gestação, sete sofrem de paralisia cerebral. O problema é decorrente de lesões ocorridas no encéfalo em desenvolvimento, ou seja, no período de formação do cérebro, e pode acontecer no pré-natal, natal ou pós-natal, levando a distúrbios da motricidade e do tônus muscular. 

Normalmente, a criança que sofre de paralisia tem dificuldade para sentar, andar ou realizar qualquer outra atividade rotineira, inclusive de alimentação e higiene. "Se não for tratada, podem ocorrer deformidades graves, rigidez, contratura e uma dor forte e persistente", explica. Dependendo da área afetada no cérebro, a paralisia também pode comprometer a cognição (inteligência). No Brasil, a maioria dos casos de paralisia é decorrente de asfixia neonatal. Outros, por prematuridade e infecções do sistema nervoso central como meningite e toxoplasmose, entre outras. 

Em muitas situações, como no momento do parto, a paralisia poderia ser prevenida, se fossem melhoradas as condições de nascimento dos bebês. Nesse caso, é importante, por exemplo, garantir a presença de um pediatra no local do parto, para detectar possíveis falhas de oxigenação no cérebro e contornar o problema imediatamente. 

Opções de tratamento 

Caracterizada a paralisia, as opões de tratamento são muitas e envolvem uma equipe muldisciplinar composta de neurologistas, ortopedistas, fisiatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e psicólogos, entre outros. Todos têm sua função e, no momento certo, devem entrar em ação. 

Os tratamentos medicamentosos tratam as convulsões – quando elas ocorrem – e atuam na espasticidade, muito comum nas crianças que sofrem da patologia. Nesse caso, a toxina botulímica – botox entra como uma forte aliada do tratamento. A espasticidade pode ser definida como uma hipertrofia muscular, na qual os músculos espásticos têm um aumento da resistência quando são alongados, sendo mais difícil "esticá-los". 

Quando aplicado no músculo, a toxina interfere na contração involuntária excessiva, facilitando a execução do movimento. Ela deve ser reaplicada a cada seis meses até o crescimento da criança, dependendo da avaliação do médico. "Esse tratamento resulta numa melhora significativa da marcha e a apreensão das mãos, postergando ou evitando a cirurgia", comenta César Luiz. O procedimento é ambulatorial e não traz efeitos colaterais. Cerca de 15 dias após o procedimento, deve ser iniciada fisioterapia e, em alguns casos, o uso de órteses para acostumar o músculo no movimento certo. 

Entre as opções cirúrgicas estão a rizotomia dorsal seletiva, que pode ser feita após os três anos de idade. Ela preserva a força muscular e não altera a sensibilidade. Tem melhores resultados para os membros inferiores e também é útil para os superiores. "A paralisia em si não tem cura, mas a qualidade dos movimentos pode melhorar com os tratamentos e piorar na ausência deles", afirma. 

Mas é preciso lembrar que cada paciente deve ser tratado com especificidades, partindo do princípio de que o que funciona para um pode não funcionar para todos. "Cada paciente deve ser tratado como único, seguindo uma rotina de acompanhamento, independentemente de sua classe social." 

Adriana Izabel Chinchilla, de 30 anos, que criou a Associação Crepúsculo, lembra que, além de tratamento médico, os portadores de paralisia cerebral também precisam de espaço para contato com o lúdico, com a criatividade. Por essa razão, trabalha a expressão corporal dos pacientes que sofrem da patologia. "Eles não precisam garantir apenas a sobrevivência básica. Precisam também buscar novas experiências como seres humanos criativos e integrados", ensina. Segundo ela, o grupo Crepúsculo criou uma nova estética para a dança, na qual pequenos movimentos ganham expressão.