Humberto Alexandre Genari
Conheça detalhes interessantes da vida deste Administrador de Empresas que procura informar e prevenir através de palestras.
Reportagem: Paulo Kehdi

Humberto Alexandre Genari
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O administrador de empresas Humberto Alexandre Genari, 40, é mais um exemplo de como situações adversas podem e devem ser superadas com uma boa dose de otimismo, profissionalismo e, principalmente, amor à vida.
Vítima de um acidente de carro, cujas razões até ele mesmo desconhece, que o deixou paraplégico, este paulistano foi descobrindo um novo mundo. Mais do que se adaptar a ele, Humberto procura
melhorá-lo.
Ministrando palestras para um público variado, Genari busca prevenir e esclarecer, usando para isto uma linguagem informal, carregada de um humor espontâneo e inteligente. Conheça um pouco mais da vida deste ex-bancário lendo a entrevista que se segue.
Quais são os principais objetivos de suas palestras?
Dar a informação é primordial. Conscientizar o futuro profissional de diferentes áreas, que mantém ou manterá contato freqüente com pessoas com deficiência, da importância dele no processo de recuperação e adaptação do indivíduo lesionado. E também alertar o público em geral, mas principalmente a garotada, dos perigos de uma direção leviana, inconseqüente. Busco passar para o adolescente que a responsabilidade dele aumenta consideravelmente com a aquisição da carteira de habilitação. Não só com ele mesmo, mas com o próximo, já que passam a dividir o mesmo espaço nas ruas e estradas. A vida pode ser vivida intensamente, com prazer, sem que o fator risco seja levado a níveis extremos.
Você mistura os públicos em suas palestras?
Não. As palestras direcionadas aos universitários possuem um outro tipo de enfoque e material de apresentação diferenciado. O mesmo raciocínio se dá em relação ao jovem. Vou até o local deles, seja a escola ou a faculdade, com um discurso completamente diferente do que apresento a um futuro fisioterapeuta ou psicólogo, por exemplo. Seria impossível passar o que pretendo para uma audiência heterogênea.
E o material das palestras? Como você faz para elaborá-los?
Já tenho muita coisa pronta, baseada principalmente em minha experiência de vida. Mas sempre que algo novo surge, vou agregando, aprimorando. Faço muitas pesquisas, procuro novas informações. Trabalho com Data-show, fitas de vídeo, mostro os esportes paraolímpicos e faço comparações com esportistas não deficientes. Os músculos usados, por exemplo, são bem diferentes. Nas palestras para os jovens conto também com material fornecido pela Polícia Militar e pelo Corpo de Bombeiros. Alerto para o perigo do álcool e das drogas ilegais, mas estou aberto a discutir qualquer tema seja qual for a audiência. Aceito e incentivo o debate.
E a participação do público? Como é?
Minhas palestras são interativas. Os jovens ficam super ligados, procuro sempre evitar o lugar comum. Adoto uma linguagem carregada de humor, mas nada forçado, para uma assimilação mais fácil. Com relação aos universitários é importante salientar que o envolvimento deles durante os eventos é completamente diferente se comparado a uma palestra conduzida por um professor. A visão acadêmica é primordial, entretanto o fato de um cadeirante estar lá, na frente deles, causa uma empatia especial. A vivência é o diferencial e é isso que eles querem. Não existe nada disto em livros. Faço diversas simulações, com amputados, deficientes visuais, enfim, procuro mostrar a dificuldade do dia a dia na prática. Fiz um passeio por um Shopping de São Paulo, sendo que os participantes estavam em cadeiras de rodas. Todos, sem exceção, sentiram as reações dos transeuntes e dos atendentes. Perceberam que o tratamento não é o mesmo. Desta forma aprenderão a lidar melhor com o deficiente quando forem exigidos para tal.
Você se dedica somente as palestras?
Não. Trabalho também como professor convidado na UNICAPITAL (Centro Universitário Capital). Sou responsável pela disciplina de Dinâmica da Fisioterapia. A verdade é que minha vida profissional mudou muito depois do acidente.
Conte-nos sobre essas mudanças.
Trabalhava como bancário, no chamado Open Market, na mesa de operações do
Chase Manhattan, um banco de investimentos. Logo depois do ocorrido, fui procurado por eles e induzido a um acordo, pois estava financeiramente necessitado, combalido pelos excessivos gastos feitos durante o tratamento. Me foi oferecido um ano de salário em troca de meu desligamento da empresa. Aceitei não só pela condição econômica, mas também pela fragilidade emocional que me encontrava naquele momento. E apesar de um operador trabalhar sentado, não me foi dada opção alguma. A instituição não me queria mais lá. Neste período tudo foi muito difícil. Logo após a minha recuperação abri uma pequena empresa voltada para o fornecimento de componentes de informática. O grande problema foi que, como só contratava funcionárias cadeirantes, éramos constantemente assaltados. Acabei sofrendo um revés definitivo e fui obrigado a fechar o negócio. Depois disso fui me virar com cobranças de cheque. Vivi situações tragicômicas. Em postos de gasolina, as pessoas tinham medo de mim já que eu não descia do carro. Achavam que eu estava armado. Bom, pelo menos eu conseguia cobrar o calote (risos). Foi há três anos que comecei com as palestras, motivado principalmente pela falta de informação reinante.
Quanto custa uma palestra sua?
Nada. Minhas palestras são gratuitas. Estou em busca de patrocínio, tanto na área pública como na privada, mas as dificuldades são tremendas. A maioria das empresas não quer nem me receber. Justiça seja feita,
a RIMED que doou uma cadeira de rodas motorizada. Tenho a opção de ficar praticamente de pé. É fantástica. Houve momentos em que tive que escolher entre comer e dar as palestras. Optei por elas, mesmo com a barriga roncando. Sou apaixonado pelo que faço.
E seus proventos financeiros? Da onde vêm?
Recebo pela UNICAPITAL como professor convidado e sou aposentado por invalidez. Mas a quantia é muito pequena.
Você está se integrando ao CVI Aracy Nallin. Explique como funciona e quais são os objetivos.
É tudo muito recente. Fui para lá em janeiro deste ano. A Flávia Maria Paiva Vital, que é a presidenta, me convidou pelo estilo de vida que eu levo. Ela me considera um deficiente independente. Este é o objetivo principal do CVI, mostrar portadores de deficiência independentes e fazer ver aos que se escondem negativamente atrás desta condição que isto não leva a nada. Vou trabalhar na avaliação de diversos projetos com outras pessoas. Temos estudos na área de esportes adaptados, estou tentando implantar um banco de livros digitalizados para deficientes visuais, um CD para professores com a língua de Libras, tudo isto aqui na UNICAPITAL e junto a Prefeitura estamos tentando viabilizar um projeto com relação às calçadas que são terríveis.
Conte do acidente que motivou sua lesão.
Eu estava trafegando tranqüilamente pela Rodovia Dom Pedro I no dia 25 de janeiro de 1988 e, de repente, acordei no hospital. É incrível, mas é exatamente isto. Não me lembro de absolutamente nada. Testemunhas dizem que meu carro rodou e que bati de frente com um caminhão. Na hora do resgate fui socorrido por pessoas comuns, o que só agravou a situação pois não foi obedecido o procedimento correto. Dei entrada no hospital como óbito. Sofri uma lesão medular T6, a haste da coluna se descolou por três vezes e fiquei 31 dias em coma.
E depois? Como foi sua recuperação?
Passei por todas as fases que um cadeirante passa. Tive muita depressão, pensei até em me matar, mas fui superando os obstáculos, aceitando e aprendendo com a nova condição e hoje em dia lido com tudo isto muito bem. Sou uma pessoa feliz, que gosta do que faz e que leva a vida com muita intensidade e bom humor.
Você mora com alguém?
Não. Tenho dois filhos que amo, mas que moram com minha ex-mulher.
Sente alguma dificuldade pelo fato de morar sozinho?
Nenhuma. E não existe nada adaptado em minha casa. O que fiz foi arrancar todas as portas. Elas praticamente inexistem em minha residência. Só tem a porta da frente e uma de correr no banheiro. No início o que acontecia é que eu esquecia muito de pegar umas coisas. Por exemplo, estava na cama e me lembrava, preciso pegar tal coisa. Aí toca voltar para a cadeira. Voltava para a cama e me lembrava de um outro negócio. Quer dizer, cadeira, cama, cadeira, cama. Bom, no final eu estava exausto. Tinha câimbras, pois usava músculos que não estavam acostumados a trabalhar. Mas com o passar do tempo e a criação do hábito não tive mais este tipo de problema.
Você sofreu ou sofre algum tipo de preconceito?
Sempre tem. Até mesmo no prédio onde moro tenho que conviver com isto. Pessoas se recusam a dividir o espaço de um elevador comigo, por exemplo. Alguns evitam o toque, o contato. Numa roda de amigos, o cara cumprimenta todos dando a mão. Quando chega a sua vez, tudo se resume a um aceno. As pessoas têm que entender que nós vivemos apenas numa condição diferente, nada mais. Mas internamente convivo com isto numa boa, levo até na brincadeira. Quando eu abro a porta do elevador e encontro o sujeito que se incomoda com minha presença, pergunto: "E aí? O que eu faço? Entro ou deixo você subir sozinho?" (risos).
Voltando as palestras. Como fazer para te contactar?
No meu site tem todas as informações. O endereço é www.humbalex.com.br. Telefone, e-mail, enfim tudo o que é necessário.
E seus planos futuros?
Fazer cada vez mais palestras. E torná-las mais completas, em todos os sentidos, já que sempre busco o aprimoramento. Estou empenhado na tarefa de difundir meu trabalho em empresas, onde pretendo dar um enfoque maior no fator motivação. Enfim, quero mostrar para um número cada vez maior de pessoas que o deficiente possui um grande potencial. E que ele ama, come, se veste, se diverte, chora. Somos todos iguais.
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