A história da mulher que quando pegou AIDS achou que não teria mais dias das mães.
8/5/2005 – 18h00
O telefone tocou hoje a uma da madrugada. Do outro lado da linha era alguém querendo saber como foi o seu dia das mães há oito anos. Ao mesmo tempo em que descrevia aquela manhã, recebia de seu casal de filhos um pijama. “Esse já vai para Belo Horizonte comigo hoje cedo”, contou Sílvia Almeida, 41 anos.
Em 1997 a manhã estava bonita e ensolarada como a de hoje, quando Sílvia Almeida ouviu alguém bater na porta da sua casa. Não passava das nove horas da manhã, talvez ainda fosse oito. Ela mal sabia o que ainda tinha por vir. Na porta do quarto, sua filha
Hérica, na época com 15 anos de idade, tinha nos braços um urso de pelúcia. Na mesa da sala frutas, biscoitos, bolachas, leite, cereais, bolos, geléias, iogurte. Era uma cesta de café da manhã que tinha ganhado dos filhos. Foi pago com um dos primeiros salários de
Hérica. “O urso de pelúcia guardo até hoje”.
Essa foi a primeira refeição do “melhor dia das mães que passei”, explica
Sílvia Almeida. Sentaram os três em volta da mesa e desfrutaram de um dia o qual ela nunca pensou que fosse chegar. Até uma xícara com o nome da mãe gravado, estava entre os presentes. Na água, as flores que também faziam parte da homenagem, deixavam o clima mais alegre. Seu tratamento anti-retroviral havia começado há 6 meses. Aquele dia ficou na memória de
Sílvia Almeida. “Me lembro que almoçamos todos juntos. Eu, meus filhos, minhas duas irmãs, minha mãe e meu irmão. Foi ótimo”.
Em 1993, ano em que ela descobriu a doença, a manhã do dia das mães não foi tão bela como a de 1997. “Acordei com a certeza de um futuro escuro. Pensei que meus filhos talvez não poderiam mais comemorar essa data comigo”.
Sílvia Almeida viveu quase três anos sem o coquetel, começando o tratamento em 1996. No ano seguinte ela já se sentia melhor tanto fisicamente como psicologicamente. “Eu já estava fazendo terapia também.”
A mãe da família descobriu que era soropositiva quando o médico do filho lhe pediu os exames. Felipe na época tinha um ano de dois meses de vida.
Hérica, já com dez, não precisou passar pelo laboratório. “Recebi o resultado do meu exame e do meu filho junto. Na hora fiquei com uma enorme angústia. Pensei no futuro, no preconceito. Mas fiquei feliz também por meu filho não ter o vírus. Eu o havia amamentado por três meses.”
Com a descoberta do coquetel a doença passou as ser vista sob outro olhar. “No início da epidemia, estar com Aids era um motivo muito angustiante. Agora em função dos medicamentos não têm mais aquela conotação anterior. As mães estão revestidas de mais expectativas”, explica Ana Maria Baricca, 51 anos, psicóloga aposentada que tratou de pacientes com HIV durante 13 anos nos corredores do Hospital Emílio Ribas.
Para Baricca o dia das mães para pessoas como Sílvia Almeida é especial. “A luta para que o filho não venha ao mundo com HIV e a angústia da espera do resultado do exame faz com que esse dia seja diferente dos outros. Esses momentos envolvem uma enorme batalha, preconceitos e barreiras”, afirma a psicóloga.
Hoje logo cedo ela embarcou para Belo Horizonte. Não tomou um café da manhã como o de 1997 e também não ganhou urso de pelúcia. Mas nas malas carrega o pijama que usará para dormir depois do congresso do qual irá participar em Minas Gerais. Sílvia Almeida é integrante do Movimento Nacional de Cidadãs Posithivas e ativista pelo Grupo de Incentivo à Vida (GIV) e foi para BH para participar de um congresso de mulheres que irá falar sobre Aids. Incentivará outras mães a poder ver uma manhã ensolarada como a de hoje. E a de 1997.
Emiliano Capozoli Biancarelli
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