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Discurso de Christopher Reeve

Nos últimos anos, temos ouvido falar muito de uma coisa chamada valores familiares. Como tantos aqui, eu também quebrei a cabeça para entender o que isso significa. Depois que sofri o acidente, encontrei uma definição que parece fazer sentido. Para mim, significa que pertencemos a uma mesma família, que temos os mesmos valores. Se for isso mesmo, se os Estados Unidos forem mesmo uma família, então temos de reconhecer que alguns dos seus membros estão feridos.

Tomando apenas um aspecto do que estou dizendo, um em cada cinco de nós tem algum tipo de deficiência. Talvez uma tia com mal de Parkinson, um vizinho com lesão na coluna, um irmão com Aids. E se o conceito de família fizer mesmo sentido para nós, temos de fazer alguma coisa.

Em primeiro lugar, nossa nação não pode aceitar discriminação de nenhuma espécie. Por isso o Americans with Disabilities Act é tão importante e deve ser respeitado por todos. É a lei dos direitos civis rompendo barreiras tanto na arquitetura quanto nas atitudes.

Seu objetivo é facilitar o acesso do deficiente não só a edifícios, mas a todas as oportunidades que a sociedade oferece. Acredito muito que nossa nação apoie incondicionalmente as pessoas que ajudam os deficientes a ter uma vida independente.

É claro que precisamos equilibrar o orçamento. E vamos conseguir.

Devemos ser extremamente cuidadosos com cada dólar que gastamos. Mas também temos de cuidar de nossa família - e não eliminar programas de que as pessoas tanto necessitam. Precisamos ser habilitados, tratados, curados.

A coisa mais inteligente a fazer é investir em pesquisas, que nos protejam de doenças e nos tragam cura. Este país já tem uma longa tradição em coisas assim. Quando nos concentramos num problema, geralmente encontramos soluções. Mas nossos cientistas podem fazer mais que isso. E cabe a nós dar a eles essa chance.

Isso quer dizer aumentar as verbas para as pesquisas. Nesse exato momento, por exemplo, cerca de 250 mil americanos sofrem de lesão na medula espinhal. Nosso governo gasta cerca 8,7 milhões de dólares só para manter esses membros de nossa família. Mas gastamos apenas 40 milhões por ano em pesquisas, que poderiam  fazer muito mais para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas, tirá-las da assistência pública e até curá-las.

Sejamos mais inteligente, façamos o melhor. Porque o dinheiro que investimos hoje em pesquisas determinará a qualidade de vida de nossos irmãos amanhã.

Durante minha reabilitação encontrei um jovem chamado Gregory Patterson. Enquanto ele dirigia tranqüilamente pelas estradas de Newark, Nova Jersey, uma bala perdida atravessou o vidro do seu carro, entrou por seu pescoço e causou séria lesão na medula espinhal. Cinco anos atrás, ele teria morrido. Hoje, graças à pesquisa, ele está vivo.

Mas não basta apenas estar vivo. Temos a responsabilidade moral e econômica de amenizar sua dor e evitar que mais pessoas conheçam tanto sofrimento. Para isso, não é preciso aumentar impostos, mas sim nossas expectativas.

Os Estados Unidos Unidos têm uma tradição que talvez muitos invejem: quase sempre conseguimos o impossível. Isso é parte do caráter nacional. Foi isso que nos levou de uma costa à outra. Foi isso que nos tornou a maior economia do mundo. Foi isso que nos fez chegar à Lua.

Na parede de meu quarto no hopistal de reabilitação havia a foto de uma nave espacial, autografada por todos os astronautas da Nasa na época. No alto da foto se podia ler: "Nada é impossível". Esse deveria ser nosso lema. Porque isso não é algo que possamos fazer sozinhos, mas todos juntos, como nação, conseguiremos.

Há tantos sonhos que, a princípio, parecem impossíveis, depois improváveis e, por fim, quando somamos a eles nossa vontade, tornam-se inevitáveis. Se conquistamos o espaço exterior, podemos também conquistar o interior: a fronteira do cérebro, do sistema nervoso central, de todas as aflições do corpo que destroem tantas vidas e roubam tanto potencial de nosso país.

A pesquisa pode trazer esperança para muita gente que sofre do mal de Alzheimer - o gene causador da doença já foi descoberto. Pode ajudar pessoas como Muhammad Ali e o reverendo Billy Graham, que sofrem do mal de Parkinson. Americanos como Kirk Douglas, que sofreram infarto. Aliviar o sofrimento de pessoas como Barbara Jordan, que luta contra a esclerose múltipla. Encontrar o tratamento para gente como Elizabeth Glaser, a quem perdemos para a Aids. Hoje, sabendo que os nervos da medula espinhal podem regenerar-se, estamos prestes a ver milhões de pessoas como eu levantar-se da cadeira de rodas e sair andando.

Há 56 anos, Franklin Delano Roosevelt entregou os novos prédios aos NIH. Na ocasião, ele disse que "a defesa que esta nação busca envolve muito mais que construir aviões, navios, canhões e bombas. Não seremos uma nação forte se não formos uma nação saudável". Pode-se dizer o mesmo ainda hoje.

O presidente Roosevelt nos mostrou que um homem que mal podia erguer-se sozinho de uma cadeira de rodas foi capaz de tirar toda uma nação do desespero. E acredito - assim como essa administração também acredita - no importante princípio que Roosevelt nos ensinou: os Estados Unidos não permitem que seus cidadãos necessitados se defendam sozinhos. O país se fortalece quando todos cuidam de todos. Dar nova vida a esse ideal é o desafio que nos propomos aqui esta noite.

Muito obrigado.

Discurso de Christopher Reeve na Convenção Democrática Nacional dos EUA, em 26 de agosto de 1996. Retirado do livro de memórias Ainda sou eu (Still me), DBA Artes Gráficas, 2001.