Luz no fim do tubo.
Senado Federal sinaliza autorização para o uso de embriões excedentes congelados há
mais de três anos em pesquisas de fins terapêuticos, apesar da oposição da bancada
religiosa, e renova a esperança para tratamento de doenças crônicas e lesões medula
Inserida em 28/6/2004
Reportagem: Claudia Gisele Pinto
Parece mágica, mas não é. Imagine uma célula capaz de transformar-se em qualquer tipo
de tecido do corpo humano - em perfeito estado. Imagine que, por causa disso, a cura para
o diabetes será mera questão de tempo. Que a possibilidade de pessoas com lesões
medulares recuperarem os movimentos virará realidade e não mais um sonho de ficção
científica. E que doentes crônicos renais não terão mais de submeter-se a hemodiálise.
Tudo isso será possível graças ao uso de células-tronco embrionárias no tratamento
dessas e de outras moléstias.
A descoberta do potencial terapêutico de tais células criou grandes expectativas para a
comunidade científica. Renovou a esperança de pacientes cujas doenças pareciam invencíveis
ou tinham limitações incontornáveis. Por outro lado, causou polêmica e despertou
preocupação no meio político e religioso. A polêmica está em torno de um conceito: o
embrião deve ou não ser considerado uma vida?
Biossegurança
A primeira grande discussão sobre o tema aconteceu em fevereiro, quando a Câmara dos
Deputados vetou o artigo da Lei de Biossegurança, que autorizaria o uso de células-tronco
embrionárias para fins terapêuticos. A bancada religiosa da Câmara, que tem como
representante o deputado federal Adelor Vieira (PMDB-SC), fez campanha contra a aprovação
do artigo por considerar que o embrião é uma vida. Utilizá-lo para pesquisas seria o
mesmo que sacrificar alguns para salvar outros. O veto ao artigo decepcionou cientistas e,
principalmente, pacientes que estavam confiantes na possibilidade de iniciar novas
terapias.
"No dia da votação, acompanhamos toda as comissões", lembra a presidente do
Movimento em Prol da Vida, Andréa Bezerra de Albuquerque. A Movitae é uma organização
não-governamental que defende a liberação do uso de células embrionárias para fins
terapêuticos. "Fiquei sem saber como contar para as pessoas sobre o veto. Era como
negar a elas a única esperança de cura", conta Andréa. A Movitae organizou uma
lista com cerca de 11.000 assinaturas de apoio ao uso das células embrionárias. O
abaixo-assinado foi enviado ao Congresso Nacional como forma de pressão.
Consenso
No início de junho, senadores e cientistas participaram de uma audiência pública no
Senado e voltaram a debater a questão, chegando a um consenso: as pesquisas poderão ser
realizadas desde que utilizem embriões excedentes de clínicas de fertilização
congelados há mais de três anos. A clonagem terapêutica, processo em que se produz
embriões por meio da técnica de clonagem, continurá proibida. Segundo a Agência Câmara,
durante a audiência o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) se comprometeu a apresentar
emenda ao projeto permitindo o uso de embriões excedentes. O projeto da Lei de
Biosseguranca deverá ser votado até julho, quando se encerra as atividades legislativas
do semestre.
Para a geneticista Mayana Zatz, a polêmica é conseqüência da falta de informação.
Ela é coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo
(USP) e seu trabalho é reconhecido internacionalmente. Mayana recebeu o prêmio L'oreal-Unesco
de 2004, que é concedido anualmente apenas para cinco cientistas - um de cada continente.
A geneticista esteve presente na audiência pública realizada no Senado e apresentou aos
senadores os argumentos que justificaram a importância da liberação do uso de embriões.
Ela demonstrou que os embriões excedentes das clínicas de fertilização são organismos
com potencial quase nulo para uma gestação e que, por outro lado, têm potencial terapêutico
imensurável. "Para a Ciência, a vida é um ciclo", explica. "Um embrião
se forma e se desenvolve até originar um novo ser. Quando falamos em um embrião
congelado ou descartado, que não tem qualidade para formar uma vida, significa que o
ciclo dele acabou. No entanto, se a partir deste embrião forem extraídas células-tronco
com potencial de cura, ciclos de outras vidas serão mantidos, como a de um jovem com uma
doença muscular degenerativa."
Comparação
A pesquisadora afirma que a permissão do uso de células embrionárias pode ser comparada
à doação de órgãos. "Da mesma forma que uma família doa os órgãos de uma
pessoa falecida, os pais atendidos em clínicas de reprodução assistida poderiam doar os
embriões."
Na Profert, uma das 10 maiores clínicas de reprodução assistida do país, cerca de 300
casais são atendidos por ano. "São produzidos de 6 a 8 embriões por
tratamento", afirma Dirceu Pereira, diretor da Profert e secretário executivo da
Sociedade Brasileira de Reprodução Humana. "Estimulamos a produção de um número
maior de embriões para selecionar os morfologicamente mais adequados." Os embriões
gerados que não estão aptos a serem implantados no útero são descartados. Os que estão
aptos, mas não foram escolhidos na primeira tentativa, são congelados. "Não
incentivamos os casais a congelar os embriões, porque a maioria acaba abandonando-os nas
clínicas", diz Pereira. "O descarte desses embriões é uma realidade. Um
tesouro científico não está sendo aproveitado."
Argumentos
A dificuldade para conseguir aprovação legal para o uso de embriões estava na existência
de outro tipo de célula-tronco: as adultas, que podem ser extraídas do cordão umbilical
ou da medula óssea. Quem era a favor do veto acreditava que os cientistas deveriam
investir nas pesquisas com as células-tronco adultas, que não são tão poderosas quanto
as embrionárias, mas que também têm potencial para se transformar em vários tipos de
tecido.
Durante a audiência pública, Mayana Zatz expôs que esse pensamento é equivocado.
Atualmente, a pesquisadora lidera na USP uma equipe que se concentra na obtenção de células-
tronco do cordão umbilical para tratar doenças degenerativas como esclerose lateral
amiotrófica e distrofia muscular. Segundo Mayana, o ideal é que todas as possibilidades
sejam testadas. Ela afirma que abrir mão das células embrionárias seria o mesmo que
tirar a esperança de pacientes que não têm tempo para esperar. "A expectativa de
tempo para se colher bons resultados com as células embrionárias é pequena. Além
disso, existe um problema público. Se o Brasil não desenvolver a terapia, terá de arcar
com custos internacionais para tratar seus pacientes, já que outros países estão
adiantados nesses estudos."
Não se nega a possibilidade de desenvolver terapias com as células-tronco adultas.
Experiências bem-sucedidas têm sido realizadas no Hospital Pró-Cardíaco do Rio de
Janeiro com células-tronco retiradas da medula óssea. Pacientes vítimas de insuficiência
cardíaca têm suas células da medula transportadas para o músculo cardíaco. Essas células
se transformam em células cardíacas e renovam a região lesionada.
Aposta na cura
É preciso, no entanto, avaliar a capacidade de diferenciação contida em cada tipo de célula.
As células-tronco embrionárias não apresentam diferenças entre si. Dentro do útero, dão
origem aos mais de 200 tipos de tecidos que compõem o corpo humano. Esse fenômeno é que
transforma um embrião, que é menor que uma cabeça de alfinete, em feto. Por esse
motivo, os cientistas apostam na cura para diversos tipos de doenças usando células
embrionárias. Já as células-tronco adultas são diferenciadas e têm capacidade para se
transformar em tipos limitados de tecidos, como o músculo cardíaco. Outro ponto
importante é que os pacientes com doenças genéticas não poderiam se beneficiar de
terapias com células-tronco da própria medula, já que elas teriam as mesmas características
genéticas.
Este é o caso de Maurizzio Fioretti, 42 anos, designer gráfico aposentado que possui
distrofia muscular de Becker, uma doença genética progressiva que provoca paralisação
dos músculos. "Minha esperança de cura está nas células embrionárias",
afirma. Fioretti descobriu que tinha distrofia aos 12 anos. Atualmente, controla a
progressão da doença com medicamentos a base de corticóides. "A sensação de
impotência é enorme para quem está ao lado da pessoa que tem a doença", conta a
massagista Rita de Cássia, que é casada com Fioretti há quinze anos. Rita e Maurizzio
procuram divulgar a importância das células- tronco. "Existe muito desconhecimento
da maioria da população", diz ele. "Por várias vezes estivemos com pacientes
que poderiam se beneficiar da terapia com células-tronco e que não sabiam do que se
tratava." Para o casal, a aprovação no Senado poderia ter sido conquistada há mais
tempo caso a mobilização e a divulgação de informações fosse mais abrangente. Agora,
trata-se de recuperar o tempo perdido.
POSIÇÕES NO DEBATE
CONTRA
Adelor Vieira, deputado federal, PMDB- SC, presidente da Frente Parlamentar Evangélica
Não vemos nenhum problema na terapia com células-tronco, desde que não sejam utilizados
os embriões humanos. Somos favoráveis ao avanço da Ciência e achamos que governo
deveria investir mais nessa área, mas entendemos que a vida começa no momento da concepção
e por isso somos contra o uso de embriões. Permitindo a clonagem terapêutica de embriões,
nós estaremos abrindo precedentes para que a clonagem humana aconteça.
Dom Odilo Pedro Scherer, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
A Igreja não é favorável porque isso significa a destruição de embriões. Na nossa
visão, até que se prove o contrário, o embrião é um ser humano, com dignidade humana
e que deve ser respeitado. Isso não significa que a Igreja seja contra a Ciência. As
pesquisas devem continuar para que sejam usadas outras formas de tratamento com as células-tronco
adultas.
Dr. Zalmino Zinermann, Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas
Somos contra tudo aquilo que agride a vida humana. Usar os embriões seria um atentado
contra o princípio da vida. Não se trata de um tema simples, pois não estamos lidando
apenas com aspectos religiosos, mas com a essência espiritual do ser humano. Agora, é
inegável que chegará o dia em que teremos que lidar com um outro conceito de concepção.
Até o momento, do ponto de vista jurídico e espiritual, a vida começa na concepção.
POSIÇÕES NO DEBATE
A FAVOR
Rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato Congregação Israelita Paulista
"Não existe uma posição oficial da religião judaica, pois trata-se de um fenômeno
novo, que obviamente não consta das nossas leis milenares. Minha opinião pessoal é que
a clonagem terapêutica deve ser não só permitida, como incentivada. Qualquer técnica
que vise salvar a vida humana é louvável. De acordo com o mandamento "pikuach
nefesh" do judaísmo, salvar uma vida se sobrepõe a todos os outros mandamentos.
Embora o embrião seja uma vida potencial e, como tal não pode ser levianamente
eliminado, não podemos privar a sociedade das inúmeras possibilidades terapêuticas que
representa a pretexto de protegê-lo. Se levarmos às últimas conseqüências a defesa de
tudo o que é vivo, não poderemos nos alimentar de animais e plantas. O uso de embriões
para fins terapêuticos é mais um destes casos que exigem opção ética.
Senador Mozarildo Cavalcanti, PPS-RR (discurso no Senado)
O Brasil e outros países que proibirem as pesquisas com células-tronco embrionárias
pagarão o preço do atraso com duas moedas: a primeira será econômica, pois a
tecnologia necessária para a aplicação das terapias não será barata; e a segunda
moeda se constituirá na perda de nossos melhores cérebros para os países que mais avançarem
nessas pesquisas. Não sou um defensor ferrenho da Ciência pela Ciência, não obstante
minha formação em Medicina. A ciência deve submeter-se aos princípios éticos de uma
sociedade. O que não é admissível, no entanto, é que a Ciência se submeta aos ditames
do preconceito, da desinformação e da ignorância.
Fonte: SENTIDOS
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