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FIM DO MENU   ANDRÉA DE ALBUQUERQUE - 24/06/2004.

 ANDRÉA DE ALBUQUERQUE
(Movimento em Prol da Vida - Movitae).

Presidente da ONG Movitae fala da mobilização para obter a aprovação no Congresso da lei que libera a pesquisa com células-tronco embrionárias, esperança de milhares de brasileiros para a cura de diversas enfermidades

Em fevereiro deste ano, a polêmica sobre a liberação de pesquisas com sementes geneticamente modificadas, os transgênicos, fez passar praticamente despercebida da opinião pública outro aspecto do projeto de lei de Biossegurança, que afeta o destino de milhares de brasileiros: a liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias. Capazes de se transformar em qualquer tecido humano (um coração, por exemplo), essas células são a esperança de cura para várias enfermidades como diabetes, distrofia muscular, Parkinson e Alzheimer. Numa manobra de última hora para aprovação do projeto de lei do governo federal, no entanto, a bancada católica e evangélica conseguiu vetar a pesquisa com as células. Nas últimas semanas, com a tramitação do projeto pelo Senado, o assunto ganhou a mídia: foi tema de matérias do Fantástico, da TV Globo, e tem freqüentado com assiduidade as páginas dos jornais. Depois de passar com sucesso por três comissões, o projeto pode ir à votação nos próximos dias. A reviravolta na opinião dos políticos não ocorreu por acaso. Deve-se à abnegada articulação de uma ONG, o Movimento em Prol da Vida (Movitae), que, entre outras ações, enviou representantes a Brasília e entupiu os computadores dos senadores de emails reivindicando o direito à pesquisa – e à esperança. Criado por grupos de pais e pacientes de doenças neuromusculares, o grupo tem aprovação de pesquisadores de renome internacional e vem, passo a passo, conquistando o apoio da sociedade e levando o questionamento ao governo. “Finalmente tiramos o véu; cada editorial a nosso favor é um presente para cada paciente, cada familiar”, afirma Andréa Bezerra de Albuquerque, presidente do Movitae, que concedeu a seguinte entrevista à Agência Repórter Social. 

por UILSON PAIVA

Repórter Social – Muito se tem falado na questão das pesquisas com células-tronco. Explique para um leigo o que são essas células e como esse tema, aparentemente tão científico, pode afetar a vida das pessoas.

Andréa de Albuquerque – Chamamos de células-tronco adultas aquelas que estão presentes no sangue, pele e outros tecidos do corpo, a maioria delas em quantidade muito pequena e com capacidade muito reduzida de se transformar em tecidos diversos. As células-tronco embrionárias são as chamadas totipotentes, ou seja, têm a capacidade de se transformar em qualquer tecido do corpo humano. Por isso, elas podem afetar a vida de milhares de pessoas por meio de terapia celular e clonagem terapêutica. Distrofia muscular, esclerose múltipla, diabetes, lesão medular, Parkinson, Alzheimer, são apenas algumas das inúmeras doenças cujos portadores vêem a cura por meio do tratamento com as células embrionárias.

Repórter Social – O que falta para o Brasil aprovar a pesquisa sobre o uso de células embrionárias para fins terapêuticos?

Andréa – O texto que trata do assunto está tramitando no Senado, a lei de biossegurança, que foi aprovada pela Câmara dos Deputados proíbe as pesquisas com células-tronco embrionárias. Então o Senado precisa retificar o texto, propor emendas e regulamentar as pesquisas com células-tronco embrionárias. Ficamos felizes com a abertura que os senadores deram para discutir o assunto, pois o maior problema é a falta de esclarecimento.

Repórter Social – A principal dificuldade para aprovação de leis no Congresso é a pressão da Igreja Católica?

Andréa – A Igreja Católica é contra, assim como é contra o uso da camisinha e nem por isso o governo proíbe o preservativo, muito pelo contrário. A principal dificuldade, portanto, é a submissão do Congresso em relação a opinião da Igreja sobre o assunto. A proibição das pesquisas aconteceu por causa da pressão das bancadas católica e evangélica. O mais triste disso tudo é que esta pressão é muito mais por motivos políticos que religiosos. A prova disso é o apoio que tivemos da Igreja Presbiteriana. Podemos dizer ainda que o Congresso se mostrou contrário à Constituição, afinal deveríamos ser um estado laico, livre de interferência religiosa. Sou católica praticante, mas não quero matar ninguém, não quero que crianças brilhantes continuem morrendo de doenças degenerativas. Então, obviamente, não posso concordar com o posicionamento da Igreja Católica sobre o assunto.

Repórter Social – A solução encontrada pode ser a importação de células de embriões, como num caso recente de uma pesquisadora da USP?

Andréa – A importação foi bastante importante. Ela foi feita pelo Centro de Estudos do Genoma Humano (CEGH), que é um braço brasileiro do Projeto Genoma mundial. Porém esta não seria a solução. Esta dependência da compra de linhagens de outros países representaria um atraso muito grande. O Brasil tem pesquisadores de primeira linha e pode ter um material excepcional para as pesquisas. Dependermos de material importando pode engessar o potencial de novas descobertas, além de ser muito mais custoso. De que adianta a FAPESP (órgão que financia o CEGH) investir tanto em pesquisas se isso não poderá ser utilizado pela população? Se o tratamento com células embrionárias continuar proibido?

Repórter Social – Como é a lei em outros países? Quem tem leis a favor e contra?

Andréa – Japão, China, Coréia do Sul, Israel, Espanha, Inglaterra, Austrália, Canadá, todos esses países, e muitos outros, aprovam as pesquisas com células-tronco embrionárias. O Reino Unido avançou bastante no assunto e recentemente a Inglaterra inaugurou o primeiro banco nacional de células embrionárias. A Comunidade Européia é a favor, aprova, e cada país regulamenta a seu modo, podendo ou não aprovar as pesquisas. Um caso clássico de proibição é na legislação italiana, pelo poder opressor do Vaticano.

Repórter Social – Como surgiu o Movitae?

Andréa – Surgiu após uma reunião da qual participaram o Grupo de Pais e Pacientes de Doenças Neuromusculares, membros da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) e a doutora Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano, na USP. Este encontro foi suficiente para vermos que era necessário haver um movimento para esclarecer a sociedade civil sobre o que é a utilização das células-tronco embrionárias e mostrar ao governo a importância das pesquisas.

Repórter Social – Um dos lemas do Movitae é "Cordão umbilical não é lixo hospitalar". Por quê? Qual sua proposta?

Andréa – Mesmo sendo pluripotentes (transformam-se em alguns tecidos dos corpo, mas não em todos) as células-tronco do cordão umbilical tem um papel muito importante. As células-tronco presentes no sangue do cordão umbilical e placentário também são conhecidas como adultas, porém com mais plasticidade, podendo dar origem a células cardíacas, por exemplo. Daí a importância de haver BSCUPs Públicos (Bancos Públicos de Sangue do Cordão Umbilical e Placentário) em todos os estados brasileiros. Estes bancos poderiam, dentre outras coisas, representar maior amostragem, aumentando a compatibilidade e conseqüentemente a chance de cura de pessoas com leucemia. É importante deixar claro que o Movitae não é a favor dos bancos particulares, porque eles “vendem” a falsa idéia de que congelar o sangue do cordão umbilical do próprio filho será a garantia dele estar com sua saúde assegurada.

Repórter Social – Os resultados de futuras pesquisas no Brasil seriam revertidos para tratamentos públicos ou, inicialmente, haveria restrição econômica aos prováveis beneficiados? Em outras palavras, o SUS poderia custear os tratamentos? 

Andréa – Deveria custear, deverá! De qualquer maneira, sairá mais barato para o governo aprovar as pesquisas, caso contrário terá que pagar nossa viagem. Tomei a liberdade de citar um depoimento que explica isto muito bem. É de um pai, chamado José Eduardo Tosta, pais de um menino com distrofia muscular. Ele diz: "Gostaria de deixar minha assinatura neste movimento (Movitae) que ajudará muita gente e nos trará uma medicina moderna, na cura de inúmeras doenças. Tenho um filho com Distrofia Muscular Duchene, ele e inúmeras crianças necessitam ter uma vida de qualidade melhor. Liberar a terapia celular significa não só a cura das doenças, como também ocorrerá em uma economia vultosa para os cofres do governo. Outros países, como os do Reino Unido, já estão se adiantando com relação a esta nova medicina. Isto significa dizer que, se eles descobrirem e em nosso País estiver proibido este tipo de tratamento, estaríamos nós, pais, solicitando ao governo brasileiro recursos que curariam nosso filhos em outros países. É isso que a constituição nos permite."

Repórter Social – Se a pesquisa for aprovada agora, a ciência ainda poderá salvar as vidas dos pacientes que hoje sofrem de várias enfermidades ou isso só seria percebido por outras gerações de pacientes?

Andréa – O tempo dos cientistas é outro, a noção de tempo é realmente diferente dos pacientes, que não têm tempo, têm pressa. O Movitae fez uma coisa legal neste sentido, pois foi uma ferramenta para pressionar também os cientistas. Não podemos nos iludir e achar que independente de como o paciente está, o tratamento com células-tronco irá curá-lo. Por isso, sempre falamos em possibilidade de cura. Vale a pena reforçarmos a idéia de que, antes de tudo, defendemos a liberdade de pesquisa científica de forma geral, que independente de trazer a cura, pode descobrir novos medicamentos, tratamentos, que podem ser até mesmo paliativos, mas que são muito, muito importantes.

Repórter Social – Na Itália, onde o Vaticano exerce uma influência muito forte, o tema é praticamente inexistente na imprensa. Qual sua opinião sobre o tratamento que a imprensa brasileira vem dispensando ao tema? Está ajudando a esclarecer?

Andréa – Estamos nesta luta há um ano e meio e, talvez, se a imprensa tivesse nos dado espaço desde o início, não teríamos perdido no Congresso em fevereiro deste ano. Mas de qualquer maneira a imprensa tem sido excelente, está, sim, ajudando a esclarecer. Finalmente tiramos o véu! Cada editorial a nosso favor é um presente para cada paciente, cada familiar.

Fonte: REPÓRTER SOCIAL.