Superando obstáculos.
22/06/2004
Por Heitor Shimizu
Agência FAPESP - Uma equipe de cientistas da Universidade de São
Paulo conseguiu vencer em parte as barreiras impostas pelo projeto de Lei de Biossegurança,
aprovado em fevereiro na Câmara dos Deputados e que tramita no Senado Federal. Os
pesquisadores, do Instituto de Biociências (IB), importaram dos Estados Unidos quatro
linhagens de células-tronco embrionárias humanas, proibidas de serem estabelecidas no
Brasil.
As células embrionárias foram recebidas do laboratório do professor Douglas Melton,
do Departamento de Ciências Naturais da Universidade de Harvard, um dos dois grupos
norte-americanos que estão fornecendo o material para cientistas de outras instituições
e países. Diferente do outro centro, ligado à Universidade de Wisconsin, que cobra pelo
material, a equipe de Melton cedeu gratuitamente as células aos pesquisadores da USP.
Estamos muito entusiasmados com o recebimento das células-tronco embrionárias
humanas, pois se trata de um modelo experimental de enorme valor em termos de linhas de
pesquisa que podem ser abertas, disse Lygia da Veiga Pereira, professora do IB. A
equipe de Lygia foi a responsável pela criação, em 2001, das primeiras linhagens de células-tronco
embrionárias de camundongos e da primeira leva de camundongos geneticamente modificados
no país. A conquista foi importante por permitir o desenvolvimento de modelos para o
estudo de doenças que afetam o ser humano.
Após o descongelamento do material que acaba de chegar, os pesquisadores passarão à
fase de estudos, quando irão comparar resultados com os modelos conseguidos no trabalho
com camundongos. Apesar de animada com a oportunidade de pesquisa que acaba se ser aberta,
provavelmente a primeira do tipo no país, Lygia ressalta que o fato de não poder
estabelecer suas próprias linhagens de células-tronco embrionárias no Brasil representa
um grande prejuízo científico.
Perdemos uma parte fundamental do estudo, perdemos autonomia e ficamos à mercê do
desenvolvimento feito em outro país, disse. Segundo a professora do IB, a obtenção
desse material de pesquisa poderia ser feito no país sem dificuldade alguma, se não
houvesse impedimento legal. Como a indefinição que cerca a Lei de Biossegurança ainda
é muito grande, o grupo de Lygia optou pela importação. A ciência tem que seguir em
frente, não podemos ficar parados, afirmou.
Lygia, que é também pesquisadora do Centro de Estudos do Genoma Humano, um dos
Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP, é autora de Clonagem:
fatos e mitos (2001) e Seqüenciaram o genoma humano... e agora? (2001), ambos
pela Editora Moderna.
Em fevereiro, imediatamente após o projeto de Lei de Biossegurança ter passado na Câmara
dos Deputados, a FAPESP, em reunião de seu Conselho Superior, decidiu manifestar posição
de preocupação e enviou ao Senado um documento em que pedia a transformação do texto
da lei, de modo que pudesse servir ao desenvolvimento da pesquisa científica e tecnológica
do país
A lei, nos termos em que foi aprovada, criará sérios obstáculos à pesquisa científica
e ao desenvolvimento tecnológico em um setor no qual a transferência de tecnologia, da
descoberta à sua aplicação, é extremamente rápida, disse Carlos Vogt, presidente
da FAPESP, no apelo feito aos senadores no sentido de ouvir representantes da comunidade
científica e transformar o texto da lei em instrumento de progresso e independência
tecnológica, evitando assim danos irreparáveis aos mecanismos de geração de
conhecimento e de riqueza.
Fonte: Agência FAPESP
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