Células-tronco devolvem movimentos a vítima de derrame.
Jornal Nacional - 18.11.2004
É uma conquista impressionante para a pesquisa científica brasileira. Células foram
retiradas de osso de paciente e sete dias após implante, cérebro já mostrava sinais de
recuperação
Hoje Dona Maria da Pomuceno sobe as escadas da casa onde mora. Em agosto do ano
passado, depois de um derrame no cérebro, o diagnóstico dos médicos era outro: "A
minha mãe ia ficar paralítica, ia ficar na cadeira de rodas", conta o vigilante
Márcio da Costa.
Dona Maria foi escolhida por um grupo de cientistas brasileiros para ser a primeira
pessoa no mundo a receber um implante de células-tronco no cérebro, um tipo de célula
que tem a capacidade de se transformar em quase todos os tipos de células que formam o
corpo humano.
Três dias depois de sofrer o derrame, os médicos retiraram as células-tronco do osso
da bacia dela. Pela veia de uma das pernas, chegaram até o cérebro, onde injetaram o
material.
O que mais impressionou os médicos foram as imagens feitas em um equipamento que
mostra a atividade celular no corpo humano. Sete dias depois do implante, em vez de uma
mancha escura que indicaria danos no cérebro, surgiu uma grande mancha amarela, sinal de
intensa atividade das células-tronco. O cérebro estava se recuperando.
Os neurônios que ficam na região em torno do local atingido pelo derrame normalmente
também são afetados, piorando os sintomas de paralisia. As células-tronco criam vasos
sanguíneos e produzem substâncias que fortalecem os neurônios, impedindo que os danos
se alastrem.
"Em 17 dias, ela teve alta hospitalar e está caminhando de forma independente e
compreendendo completamente a linguagem", comemora a neurologista Maria Lúcia de
Mendonça.
Imagens feitas pelos médicos mostram a primeira caminhada de Dona Maria depois do
implante. Agora os cientistas querem repetir o procedimento em mais nove pacientes, para
poder transformar a técnica ainda experimental em terapia rotineira nos hospitais, dentro
de no máximo oito anos.
"O procedimento é seguro, não põe em risco o paciente e sugere fortemente um
possível efeito positivo de recuperação desse paciente", afirma o diretor
científico do hospital Pró-Cardíaco, Hans Fernando Dohmann.
Em casa, Dona Maria abraça o filho. Um movimento simples, mas que agora desperta
também um sentimento de esperança. "Se deu resultado com ela, ela sendo a primeira
pessoa, isso vai beneficiar milhões e milhões de pessoas", acredita Márcio.
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