Células-tronco
Inserida em 10/01/2006.
Especialistas falam sobre os benefícios que, futuramente, as células-tronco trarão para pessoas que tiveram Tecidos e órgãos lesados por diversas doenças
Ricardo Ribeiro dos Santos e Milena Soares
Estamos vivendo uma revolução na medicina. Tecidos e órgãos lesados por diversas doenças para as quais não há hoje tratamentos eficazes poderão, em um futuro próximo, ser recuperados de modo a restaurar a sua função no organismo. Isto se deve à descoberta de células capazes de gerar outras células características de vários tecidos, as chamadas células-tronco. Como um tronco que origina os ramos, folhas, flores e frutos de uma árvore, elas são responsáveis pela geração de células capazes de levar ao crescimento, diferenciação, renovação e reparo tecidual. Estas estruturas podem ser obtidas de várias fontes, entre elas o embrião, o feto, a placenta, o cordão umbilical e de vários outros tecidos do organismo adulto.
As células-tronco embrionárias são as de maior potencial de diferenciação, o que as torna excelentes candidatas para utilização em terapias celulares. No Brasil é permitida a sua obtenção a partir de embriões humanos não usados em clínicas de reprodução assistida. No entanto, além das questões ético-religiosas envolvidas na sua obtenção, há ainda obstáculos que devem ser superados para seu uso de modo seguro. Estas células têm um potencial de formação de tumores e não possuem compatibilidade de tecido (a linhagem de células embrionárias não vem do paciente).
Em relação a esta última questão, um método vem sendo pesquisado - e deverá continuar objeto de estudo em 2006 - com a finalidade de gerar células-tronco embrionárias com a carga genética do próprio paciente: é a clonagem terapêutica. Testa-se a transferência de núcleos de células obtidas do doente para óvulos de mulheres doadoras de modo a gerar embriões a partir dos quais podem ser obtidas células tronco compatíveis que poderão ser usadas no tratamento destes pacientes.
No Brasil, durante todo o ano que começa, estarão em andamento diversas pesquisas. Nosso grupo, por exemplo, está trabalhando com células-tronco para tratamento de doenças renais, retinopatias, doenças auto-imunes (o sistema de defesa ataca células do próprio organismo), acidente vascular cerebral, lesões de medula espinhal, de nervos periféricos e de articulações, epilepsia e enfermidades hepáticas. Alguns desses estudos ainda estão em nível muito experimental, mas outros já se encontram em estágio de aplicação de protocolos clínicos. Na Faculdade de Medicina de Marília, no interior de São Paulo, cientistas iniciarão pesquisa sobre o potencial das células-tronco para tratar o mal de Alzheimer (doença degenerativa caracterizada pela perda progressiva da memória, entre outros sintomas).
Além disso, continuará em curso o grande estudo em cardiopatias, que incluirá 1,2 mil pacientes. Este estudo está sendo financiado pelo Ministério da Saúde e demonstrará se a terapia com células-tronco extraídas de medula óssea é de fato eficaz, como sugerem os estudos preliminares. O trabalho terá a duração de três anos, mas talvez tenhamos resultado antes, dependendo do andamento do projeto. Caso seja demonstrada a eficácia, o procedimento poderá ser incorporado pela rede pública de saúde.
Ricardo Ribeiro dos Santos, Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Campus de Ribeirão Preto (SP), Pesquisador da Fiocruz/Bahia e Coordenador do Instituto de Terapia Celular da Bahia (voltado à criação de terapias com células-tronco), e Milena Soares, Imunologista e Pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz/Salvador (Fiocruz/Bahia)
Fonte: revista Isto É, 28/12/05
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