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FIM DO MENU   Cura a caminho 06/06/2004.

Cura a caminho.

06/06/2004 - do programa Fantástico da Rede Globo.

Em um laboratório, em Massachusetts, Estados Unidos, trabalha o biólogo argentino José Cibelli. Em 1998, ele foi o primeiro cientista a clonar uma vaca. Em fevereiro deste ano, fez parte da equipe que, na Coréia do Sul, clonou o primeiro embrião humano.

José Cibelli explica que seu objetivo com as experiências é desenvolver tratamentos hoje inexistentes para milhões de pessoas, como o americano Judson Sommerville.

Judson é médico. Casado, tem dois filhos. Aos 29 anos, sofreu um acidente de bicicleta e ficou paraplégico. Para realizar o sonho de voltar a andar, ele precisaria recuperar o tecido da medula que foi partido no acidente. Mas isso é impossível: organismos humanos adultos não regeneram tecido do sistema nervoso.

Mas houve um momento em que todos nós éramos capazes desse feito extraordinário: quando éramos embriões.

"Nós começamos como a vida? Um óvulo é fecundado por um espermatozóide. Então, essa célula fecundada terá que dar todos os tecidos do embrião depois. E do homem adulto também. Vai ter que dar osso, músculo, cartilagem, pulmão, fígado", explica o médico Drauzio Varella.

É assim que a natureza fabrica um ser humano. As células que compõem o embrião no estágio inicial têm um nome: células-tronco embrionárias. As células-tronco têm a capacidade de se transformar em qualquer outra célula do organismo, até mesmo no tecido do sistema nervoso de que Judson tanto precisa para voltar a andar.

O ex-atleta tem motivos para ser otimista. Na Universidade de Massachusetts, cientistas clonaram um rato paralisado e injetaram as células-tronco embrionárias extraídas do clone na medula lesionada do animal. O resultado da experiência superou todas as expectativas.

O doutor Martin Vacanti, responsável pela experiência, diz que esperava uma recuperação limitada de movimentos, mas não o que acabou acontecendo. Mesmo fraco, o rato recuperou os movimentos das duas patas traseiras. Uma biópsia da medula comprova a regeneração do tecido nervoso.

Para tentar regenerar sua medula, Judson Sommerville precisa receber o mesmo tratamento. É o que José Cibelli pretende fazer assim que a técnica estiver mais desenvolvida. Judson é o paciente número um de sua lista.

Cento e vinte milhões de pessoas no mundo inteiro podem se beneficiar dessa técnica. No Brasil, o Centro de Estudos do Genoma Humano, da Universidade de São Paulo, também aposta nas células-tronco para fins terapêuticos.

A geneticista Mayana Zatz é a responsável pelas pesquisas, mas, como o Congresso Nacional ainda não liberou as experiências com células-tronco de embriões, ela é obrigada a usar outra fonte.

"Nós estamos pegando células-tronco de cordão umbilical de recém-nascidos e que geralmente são jogados no lixo, e tentando ver se essas células-tronco conseguem se diferenciar em vários tecidos", conta a geneticista.

O problema dessas experiências é que as células-tronco extraídas de cordões umbilicais não têm a mesma potência das células embrionárias. Por isso, a doutora Mayana defende a liberação das pesquisas: "Existe um atraso enorme nas pesquisas que poderiam estar se desenvolvendo, porque a gente domina toda a tecnologia".

Uma outra fonte de células-tronco para ajudar os cientistas brasileiros seriam os embriões que sobram nas clínicas de fertilização, que fazem bebês de proveta.

"A mulher é estimulada a produzir óvulos e normalmente são produzidos 10, 15, 20 óvulos. Acabam se produzindo 10, 15, 20 embriões. Alguns desses embriões já não têm qualidade para serem implantados e já deveriam ser descartados logo no começo, enquanto que outros são implantados e o casal tem os filhos que queria. Os que sobram são congelados", explica Mayana Zatz.

Os embriões congelados acabam perdendo a validade e são descartados após alguns anos. "Os cientistas lutam hoje para poder utilizar essa fonte de células embrionárias que está aí, que será absolutamente inútil, que vai acabar sendo jogada na lata de lixo do laboratório", esclarece o médico Drauzio Varella.

Mas, como no caso da clonagem terapêutica, o uso de embriões descartados nas clínicas precisa de autorização. O projeto de lei foi rejeitado pela Câmara dos Deputados e agora está em discussão no Senado.

O músico Marcelo Yuka, baleado três anos atrás, no Rio de Janeiro, perdeu os movimentos da cintura para baixo.

Ao defender a liberação das células-tronco, ele lembra que, no passado, outra técnica revolucionária também foi questionada: "Quando o doutor Zerbini falou sobre a possibilidade de transplante de coração no Brasil, muita gente riu, zombou da cara dele e muita gente também, envolvida com questões religiosas, falou que aquilo era uma blasfêmia, que era uma coisa pecadora. E em um curto espaço de tempo, o transplante de coração se tornou uma coisa quase que banal".