Aprovada pesquisa com embriões
Carolina Brígido e Isabel Braga
BRASÍLIA, 03 de março de 2005
A Câmara dos Deputados liberou ontem a utilização de embriões humanos para a
pesquisa de células-tronco. Em uma votação acompanhada por deficientes físicos e
portadores de doenças degenerativas, os deputados aprovaram ontem o projeto de
biossegurança por 352 votos a 60. Houve apenas uma abstenção. O projeto também
autoriza a comercialização, a produção e a pesquisa de transgênicos. Para entrar em
vigor, o texto precisa ser submetido à sanção presidencial.
Os pacientes que assistiam à sessão do fundo do plenário comemoraram emocionados,
com aplausos, gritos e choro. No Salão Verde, formaram uma roda e, de mãos dadas,
cantaram o Hino Nacional abraçados ao relator do projeto, deputado Darcísio Perondi
(PMDB-RS), e outros deputados.
Nós esperamos muito tempo e só agora conseguimos mudar a cabeça dos
parlamentares celebrou Carolina Sanches, de 32 anos, portadora de uma doença
neuromuscular que a mantém na cadeira de rodas desde os 11 anos.
Eu sabia que ganharíamos. Deus está do nosso lado disse Humberto Genari, de
40 anos, que se locomove com cadeira de rodas há 15 anos devido a uma lesão medular.
Ministro comemorou com pacientes
O ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, esteve durante a tarde na Câmara
para tentar convencer os deputados da importância do projeto. Ele fez questão de
acompanhar a votação até o final, quando comemorou com abraços nos pacientes
presentes.
O Brasil terá condições de captar mais recursos e agora temos que lançar os
editais e convocar a inteligência brasileira para, diante desse novo marco regulatório,
dar respostas aos 5 milhões de brasileiros que esperam pelas pesquisas.
Durante a votação de ontem, foi apresentado um destaque tentando retirar do projeto o
artigo sobre as células-tronco embrionárias. A proposta foi derrubada por 366 votos a
59, com três abstenções. Outros dois destaques também foram derrubados. Em nome da
ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o PT propôs que fosse retirado do texto o poder
dado à Comissão Técnica de Biossegurança (CTNBio) de decidir, em caráter final, sobre
a segurança do plantio e pesquisas de organismos geneticamente modificados.
Atualmente, os ministros podem vetar as autorizações da CTNBio. Esse poder caiu e,
com isso, Marina Silva saiu derrotada. Durante a última semana, ela tentou convencer, em
vão, os líderes do governo no Congresso a desistir do dispositivo. A Câmara também
rejeitou o destaque que tentava impedir as decisões da CTNBio de ter caráter vinculante
ou seja, que precisam ser cumpridas por todos os ministérios.
Deputado vai entrar com ação no STF
Os parlamentares que votaram contra o projeto lamentaram ontem o resultado da sessão.
Salvador Zimbaldi (PTB-SP) anunciou que entrará com uma ação no Supremo Tribunal
Federal (STF) para derrubar a lei.
Aprovamos hoje a matança de embriões. Pai, perdoa, porque eles não sabem o que
fizeram declarou o parlamentar.
O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), que passou ontem o dia recebendo
em seu gabinete defensores das pesquisas com células-tronco, presidiu a sessão por
apenas alguns momentos. Depois, ausentou-se do plenário. Segundo sua assessoria, ele
estava recebendo deputados para discutir outros assuntos em seu gabinete. Ao deixar a
Câmara, antes mesmo da conclusão da votação dos destaques, o presidente fez questão
de dizer que a votação já estaria definida em prol das pesquisas de células-tronco.
As negociações políticas em torno do projeto de biossegurança foram intensas ontem
nas horas que antecederam a votação. O governo havia decidido apoiar integralmente o
relatório de Perondi. Mas o PT foi para o plenário rachado, principalmente por questões
éticas e religiosas.
O dia foi de muito trabalho especialmente para Perondi. O deputado reuniu-se com as
bancadas da saúde e da agricultura, de quem conseguiu apoio total na votação que estava
marcada para a noite de ontem. Perondi também arrebanhou todos os representantes da
Igreja Universal do Reino de Deus. Os outros evangélicos estavam divididos. Dos
católicos, o apoio foi mínimo.
À tarde, Severino Cavalcanti recebeu em seu gabinete uma comitiva de parlamentares,
profissionais da saúde e pacientes em cadeiras de rodas para ouvir os argumentos em prol
do projeto de biossegurança. O grupo era liderado pela fisioterapeuta e deputada estadual
pernambucana Ana Cavalcanti, filha do presidente da Câmara. Ela fez um apelo emocionado
em nome das pessoas que enxergam na pesquisa com células-tronco uma esperança de cura.
Meu pai, se Deus me colocou nesse momento como fisioterapeuta e parlamentar, receba
isso como uma mensagem divina. Só volto para o Recife depois de ver votada e aprovada
essa lei disse Ana Cavalcanti.
Também estiveram presente na mesma reunião o ministro Eduardo Campos, o ministro da
Agricultura, Roberto Rodrigues, a professora de genética da Universidade de São Paulo
(USP) e pesquisadora Mayana Zatz e o médico Dráuzio Varella.
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