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A Respeito das Células-tronco

Por Alberto Calixto Mattar Filho
Alberto Calixto Mattar Filho – professor, bacharel em Direito e servidor da Justiça do Trabalho

Não aspiro a erigir nenhum tratado contra as religiões em especial. Há inquestionáveis exemplos de ensinamento espiritual ao longo da história. Mas lastimo os posicionamentos radicais de muitos fiéis em relação a questões que comportariam um maior grau de flexilibidade.

O extremismo e a defesa de certas doutrinas como verdades absolutas a nada conduzem. Ideal seria a evolução de o conhecimento repercutir também no terreno religioso. Religião, ciência e liberdade podem perfeitamente conviver em harmonia. Sempre que isso não ocorreu, restaram entraves ao desenvolvimento humano. Para não dizer de toda a sorte de violências que os conflitos já geraram e ainda insistem em gerar.

Façamos um retorno à Inquisição, quando milhares foram ateados à fogueira por não aceitarem o credo católico e ostentarem posições vanguardistas à época. Sirvamo-nos, aos montes, nos dias atuais, das estúpidas interpretações do islã a disseminarem o ódio ao mundo ocidental, com seus homens-bombas matando em nome das delícias do Paraíso.

Toda a mídia vem divulgando a possibilidade de um grande avanço científico representado pelas últimas pesquisas envolvendo as chamadas células-tronco. Sabe-se que tais pesquisas são uma importante esperança para a cura de doenças graves como diabetes, infarto, lesões medulares do tipo paraplegia e tetraplegia, mal de Parkinson, derrame cerebral, mal de Alzheimer e esclerose, além de outras várias.

Em linhas gerais, células-tronco são células que possuem a capacidade de formar outros tipos de tecido, incluindo os do cérebro, coração, ossos, músculos e pele. O cerne da questão é que as células-tronco mais eficazes e capazes de multiplicações muito maiores são as originárias do embrião humano. Existem também as células-tronco oriundas do cordão umbilical e da medula óssea, mas de potencial inferior àquelas, ou seja, às embrionárias. Em síntese, a vantagem das próprias do embrião está em formar qualquer tecido, ao passo que as outras, somente alguns, além do tecido do qual se originam.

Mas o grande problema é que a legislação brasileira não permite que se usem as células embrionárias em pesquisas, embasada no pensamento de que se estariam exterminando vidas. Ressalte-se, todavia, que os cientistas obtêm essas células por meio de embriões desprezados em clínicas de fertilidade. Melhor explicitando, os embriões criados pelo espermatozóide e pelo óvulo de um casal que não são implantados no útero, podem servir como fonte de células-tronco embrionárias. Atualmente, há cerca de 30.000 estocados em clínicas brasileiras de fertilização. Depois de congelados, menos de 3% deles têm chances de resultar em gravidez.E a mesma legislação ainda impede que o casal os doe para estudos.

Apesar de tudo, tramita no Congresso um projeto de lei que prevê a possibilidade de pesquisas com as ditas células-tronco embrionárias. Rejeitado pela Câmara em fevereiro último, está agora entravado no Senado, à mercê de um lento processo. A rejeição inicial, como não poderia deixar de ser, se deu por pressões de grupos evangélicos e católicos, que só admitem as experiências com células provenientes da medula óssea ou do cordão umbilical. Para estas “mentes brilhantes”, trabalhar com embriões é como atentar contra a vida. Entendem o fato como espécie de aborto, porque os embriões teriam que ser destruídos para se extraírem as células. Na realidade, colocam em mesmo nível de importância o embrião descartado e a vida plena. Grave e lastimável paradoxo. Afinal, pesquisar com embriões também é trabalhar em favor da vida. Da vida que tem esperança de cura. Da vida que se quer prolongar em condições mais favoráveis.

Alberto Calixto Mattar Filho – professor, bacharel em Direito e servidor da Justiça do Trabalho

E-mail: mattaralberto@terra.com.br 

Fonte: Radiology