PORTA DE ACESSO - www.portadeacesso.com D PULAR O ÍNDICE
FIM DO MENU   O homem biônico.

O homem biônico

Uma nova safra de implantes artificiais sofisticados reverte doenças que até recentemente não tinham cura

Inserida em: 12/11/2004
Reportagem: Yuri Vasconcelos
A construção de órgãos sob medida, cultuada pela ficção científica, começa a virar realidade

Um dos seriados de TV mais famosos nos anos 70 tinha como protagonista o ex-astronauta Steve Austin, interpretado pelo ator americano Lee Majors. Depois de sofrer um grave acidente, Austin recebeu implantes que lhe devolveram a visão, um braço e as duas pernas. Os novos órgãos funcionavam melhor que os originais, o que lhe valeu o apelido de 'homem biônico'. O que há 30 anos era ficção hoje faz parte da vida de milhares de pessoas, inclusive no Brasil. Uma nova safra de próteses ultratecnológicas reverte enfermidades que até recentemente não tinham cura ou demandavam recuperação lenta e sofrida.

Já é possível devolver até 95% da audição às vítimas dos principais tipos de surdez. Os implantes mais comuns são instalados na cóclea, parte do ouvido que transforma os sinais sonoros em elétricos. O aparelho, conhecido como implante coclear, é composto de uma minúscula unidade interna e outra externa, formada por um minimicrofone e um processador de sinais que captam o som e o transformam em impulsos elétricos.

A psicóloga baiana Ângela Maria Simões, de 50 anos, é uma das beneficiadas. Ela sofria de uma doença degenerativa que não podia ser revertida com os aparelhos auditivos convencionais. Em dezembro de 2002, ganhou um implante no ouvido direito e hoje escuta perfeitamente. 'Minha vida profissional estava acabada e, graças ao implante, pude retomá-la', diz.

Cerca de 15 mil pessoas em todo o mundo já receberam o ouvido biônico, que também pode ser implantado no tronco cerebral. Os primeiros pacientes desse tipo de prótese - duas americanas portadoras de uma doença genética grave - receberam os dispositivos no início do ano. Os cientistas acreditam que os eletrodos instalados no cérebro melhorem a capacidade de reconhecimento das tonalidades e freqüências de som. O procedimento, no entanto, é muito mais arriscado.

'Por enquanto, 30% das pessoas que recebem os implantes precisam acompanhar o movimento dos lábios de quem fala para entender o que estão ouvindo', afirma Pedro Luiz Mangabeira Albernaz, primeiro médico a fazer um implante coclear no país, em 1977. 'Mesmo que a audição não fique perfeita, a pessoa ganha alguma qualidade de vida', diz.

Ossos artificiais

SOBREVIVENTE
Marcelo recebeu um implante
de crânio depois do acidente
de moto

Na ortopedia, os avanços são notáveis. Próteses de joelho e de quadril duram mais de dez anos e substituem o osso com perfeição. O paciente deixa o hospital em dois dias. Há cinco anos, a internação durava uma semana. 'O corte para a colocação dos implantes de quadril diminuiu de 15 para 8 centímetros', explica o ortopedista Reynaldo Jesus-Garcia, da Universidade Federal de São Paulo.

O Brasil é um dos centros mais avançados em implantes ortopédicos. 'As próteses brasileiras são exportadas para o mundo todo', diz Jesus-Garcia. Os implantes são mais usados para corrigir defeitos causados por desgaste ósseo, em geral decorrente da idade. Os pacientes costumam ter acima de 60 anos. No caso de pacientes jovens, os médicos preferem recorrer a placas e parafusos.

Os materiais mais utilizados são o titânio e o aço inoxidável, mas os alternativos fazem sucesso. Uma pequena empresa localizada em São Carlos, no interior de São Paulo, desenvolveu um polímero à base de óleo de mamona que tem dado bons resultados na fabricação de ossos da mandíbula, da face e do crânio, entre outros.

As próteses não provocam rejeição e resistem a impactos. 'Elas têm características físicas e mecânicas iguais às dos ossos', diz o químico Gilberto Orivaldo Chierice, diretor da empresa Poliquil, de Araraquara, São Paulo, que detém a patente do biopolímero. Exportado para a Argentina, o invento aguarda a aprovação das autoridades americanas.

Próteses personalizadas substituem ossos com perfeição

Cerca de 2 mil pessoas já receberam implantes de mamona no Brasil, entre elas o pintor fluminense Marcelo Antonio, de 26 anos, de Rio das Ostras. Depois de sofrer um grave acidente de moto, teve afundamento no crânio, perdeu massa encefálica e ficou cinco dias em coma. 'Fiquei um ano com a cabeça 'amassada', até que recebi o implante no crânio, de cerca de 10 centímetros de diâmetro. Nunca senti dor e foi como se nada tivesse acontecido comigo', conta.

Segundo o cirurgião Edelto dos Santos Antunes, que operou Marcelo, a grande vantagem dos implantes de mamona é que eles podem ser pré-moldados e personalizados, tomando a forma da face ou do crânio da pessoa. 'Esculpimos a prótese com o mesmo desenho do osso original e, durante a cirurgia, temos de fazer apenas o encaixe e a colagem', explica. Isso reduz o risco de infecções.

ARSENAL DA SAÚDE

Dispositivos artificiais já implantados

Visão
Laboratórios trabalham no desenvolvimento do olho biônico para restaurar a visão

Mandíbula e crânio
Ossos feitos de óleo de mamona apresentam excelentes resultados

Ouvido
O implantes cocleares restabelecem a audição ao estimular o nervo auditivo com impulsos elétricos

Bacia e joelho
As próteses permitem que os pacientes se livrem das dores e recuperem os movimentos

Coração
Construir um aparelho que substitua com êxito o coração é o desafio para muitos cientistas. Quem está à frente nessa corrida é a Abiomed, uma companhia com sede em Massachusetts, Estados Unidos, criadora do AbioCor, um coração artificial que já conseguiu prolongar a vida de dez pacientes. Um deles, Tom Christerson, sobreviveu 17 meses com o órgão biônico. Feito de plástico e titânio, pesa 900 gramas e tem sido implantado apenas em pessoas com baixíssima expectativa de vida.

O AbioCor bate compassadamente com a ajuda de uma bateria do tamanho de um pager, presa externamente à cintura do paciente. Ela transmite eletricidade através da pele para a bomba artificial implantada no tórax, ao lado do músculo cardíaco. O protótipo é formado por dois ventrículos artificiais com válvulas e um sistema de bomba hidráulica a motor. Quando o coração artificial se mostrar plenamente confiável, poderá beneficiar milhares de pacientes.

Olho biônico
Os cientistas perseguem com obstinação uma forma de devolver a visão aos cegos. Existem pelo menos dois protótipos de olhos eletrônicos em desenvolvimento. A empresa Optobionics, de Illinois, nos Estados Unidos, criou uma espécie de retina biônica capaz de beneficiar portadores de determinados tipos de cegueira, como retinite pigmentosa e degeneração macular. A prótese, de 2 milímetros de diâmetro e espessura inferior à de um fio de cabelo, é implantada entre os tecidos da retina. Dotada de minúsculos eletrodos abastecidos por 5 mil baterias solares microscópicas, converte luz em impulsos elétricos.

Dispositivos experimentais começam a restaurar a visão
'Estamos tentando substituir a função dos fotorreceptores naturais', explica Alan Chow, inventor do chip e chefe de operações da Optobionics. Uma dúzia de pacientes recebeu os implantes experimentais desde 2000. Todos obtiveram alguma melhora na capacidade de enxergar.

Outra equipe de pesquisadores americanos investe no desenvolvimento de um dispositivo batizado de Artificial Retina Component Chip (ARCC). Ultrafino, é instalado sobre a retina e permite que a luz o atravesse e atinja os fotossensores colocados na parte de trás. O artefato funciona com a ajuda de um segundo aparelhinho, instalado num par de óculos especiais, para fornecer energia ao chip implantado. Os pacientes que receberam o dispositivo voltaram a enxergar imagens do tamanho de 10 por 10 pixels - a dimensão de uma letra desta página. Apesar dos resultados ainda limitados, as próteses oculares devolvem a milhões de deficientes visuais a esperança de um dia voltar a enxergar.

O FUTURO PROMETE

Os implantes em desenvolvimento

Língua e nariz sintéticos
Protótipos reconhecem sabor e cheiro. A língua eletrônica inventada pela Embrapa é mais sensível que a humana

Músculo biônico
Imita a musculatura quando estimulado por sinais elétricos. É possível que no futuro substitua até o músculo cardíaco

Pâncreas artificial
Os pesquisadores tentam criar um órgão formado por um monitor de glicose implantável e uma bomba de insulina

Braço eletrônico
O protótipo mais moderno é composto de uma pele de silicone e dotado de motores que garantem os movimentos

 

Fonte: Revista Época
Fotos: Otávio Dias de Oliveira/ÉPOCA.
Produção: Bronie Lozneanu.
Agradecimento: Crawford.
Maquiadora: Isabela Turcato.
Imagens divulgação com montagem de Nilson Cardoso


FONTE:
SENTIDOS