RECOMEÇAR É PRECISO
Por Humberto Marques - Da Redação
Fotos: Arquivo Pessoal (Flávio Lúcio) e Jefferson Ravedutti
Qualidade de Vida
Perseverança é a palavra chave para as pessoas que, por algum motivo, vêem-se obrigadas a conviver com próteses, cada vez mais avançadas e acessíveis
21 de agosto de 1997. O eletricista Flávio Lúcio, morador de Londrina/PR, foi encarregado pela empresa em que trabalhava de realizar a troca de um transformador de alta tensão em uma chácara. No instante em que inicia o serviço, é atingido por uma descarga elétrica de 13,8 mil volts. Pendurado ao poste e preso pelo cinto, diz ter aguardado por pouco tempo até que o resgate fosse realizado. No hospital, depois de recuperado dos ferimentos internos – especialmente dos rins – iniciaram-se os procedimentos que marcariam uma mudança radical em sua vida. Com os braços totalmente queimados, Lúcio teria de passar por uma intervenção cirúrgica para a recuperação dos mesmos. Inconsciente, ele não sabia o que se passava, por isso coube a seus pais tomar uma difícil decisão: a de autorizar a amputação dos seus dois braços, devido à impossibilidade de restauração. “Após a recuperação, viria o momento de deixar os braços preparados para a colocação das próteses. Mas meu braço esquerdo, no qual sobrou o cotovelo, teria de aumentar mais ou menos seis centímetros, através da colocação de um aparelho chamado Ilizarove. Nesta cirurgia, coloca-se um aparelho com um monte de ferro dentro do osso. As dores foram insuportáveis. Mas deu tudo certo”, narra, em um depoimento deixado na internet, em um site por ele criado.
A história de Lúcio, marcada a princípio por um sentimento de dor ou compaixão para quem conhece até essa parte de sua vida, demonstra também a determinação de uma pessoa para buscar seu lugar na sociedade. E, assim como ele, milhares de brasileiros conhecem a realidade de terem seus corpos mutilados, bem como a escolha – ou desafio – de dar a volta por cima. Os avanços da medicina e da tecnologia, unidos, auxiliam a tornar o caminho menos árduo, mas ainda cabe ao indivíduo a tarefa de se superar.
“Devido ao acidente, minha vida mudou bastante. Tive de me adaptar à minha nova condição, o que me trouxe inúmeras dificuldades no dia-a-dia. Logo no início, eu olhava para os alimentos na geladeira e ficava pensando num jeito de pegá-los. Você tem de se adaptar a fazer muitas coisas sem as mãos”, conta. Sete anos depois, Flávio Lúcio admite que não tem uma vida normal, “mas procuro vive-la superando meus limites. Eu aprendi a lidar com as dificuldades que enfrento”. O apoio de familiares, amigos e médicos foi de fundamental importância para a sua recuperação, a ponto de, hoje, ele realizar diversas atividades cotidianas.
Para tanto, Lúcio contou com a colocação de uma prótese myoelétrica, conectada diretamente ao braço e que lhe permite simular boa parte dos movimentos da mão esquerda. O procedimento, delicado pela complexidade, não é acessível a todas as pessoas pelo seu custo: a implantação de órteses (para melhorar funções físicas) e próteses (substituição de membros e/ou partes do corpo), de uma forma geral, é um processo dispendioso, o qual acarreta em gastos nem sempre possíveis.
Qualidade de Vida
Através da Casa de Saúde, o governo do Estado de Mato Grosso do Sul tem oferecido gratuitamente – em obediência a uma determinação do Sistema Único de Saúde (SUS) – esses materiais às pessoas que deles necessitam. O tempo médio de espera, segundo Luiz Gonçalves Mendes Júnior, coordenador do órgão, oscila entre três e quatro meses. “Por ser pelo SUS, não atendemos a consultas particulares. O sistema leva cerca de um mês para conceder o laudo médico. Se atendêssemos também aos particulares, que podem fazer isso de forma mais ágil, a fila seria ‘furada’ facilmente”, diz. Além de próteses ortopédicas, a Casa de Saúde oferece também órteses, próteses e órteses oftalmológicas, aparelhos para surdez e meios auxiliares de locomoção (cadeiras de rodas, bengalas e muletas).
O órgão conta com 40 funcionários, responsáveis pela entrega de 280 próteses ortopédicas apenas neste ano. Os beneficiados mantém seu perfil arquivado na Casa de Saúde por um período de cinco anos – em caso de ser solicitada uma auditoria na instituição, para saber onde têm sido aplicados os recursos. “Todos os materiais são para uso definitivo. Os atendimentos são voltados exclusivamente aos portadores de deficiência, e não para pessoas que passam por alguma dificuldade momentânea”, adianta Mendes Júnior.
Segundo profissionais do ramo, o setor público é o principal responsável pela demanda. “Minha empresa é estritamente particular, mas 90% dos serviços encomendados no setor são vinculados ao poder público”, informa o ortopedista e empresário Avelino Fernandes, dono de uma oficina de próteses que funciona há 30 anos em Campo Grande. A fabricação desse tipo de aparelho ortopédico é, segundo Fernandes, exclusivamente artesanal, e em extrema conformidade às determinações médicas. “Leva-se de 15 a 30 dias para fabricar uma prótese, incluindo o treinamento da pessoa para usá-la”, prossegue. O prazo pode ser ampliado, caso sejam necessárias adaptações, também indicadas por um ortopedista ou um fisioterapeuta.
A oficina de Avelino Fernandes congrega quatro profissionais. “Apesar dos percalços, é um ramo bom. Existe a responsabilidade com a pessoa, você não pode brincar com alguém que precisa desse serviço. Se fizer isso, você vai ‘quebrar a cara’”, diz o empresário. A movimentação financeira, para ele, é suficiente para custear as despesas, uma vez que, em sua visão, a concorrência em Campo Grande vem se acirrando. “De uma forma geral, há facilidade para se acessar próteses em todo o território nacional”.
Caminho – Funcionalidade e estética. Esses dois atributos são levados em consideração pelos profissionais do ramo ortopédico ao recomendar uma prótese a seus pacientes. Enquanto o primeiro busca suprir as necessidades físicas da pessoa – a ponto de substituir da melhor forma possível o membro amputado – o aspecto visual é responsável por minimizar possíveis traumas psicológicos, como olhares curiosos para o usuário. Flávio Lúcio conta ser comum a surpresa de algumas pessoas ao vislumbrarem sua condição. “Muitas vezes as pessoas chegam perto de mim e se assustam quando não vêem os meus braços. Depois de sete anos, aprendi a lidar com esse preconceito. Puxo conversa, pergunto sobre qualquer outro assunto. Logo as pessoas se descontraem e esquecem dos meus braços. Quando estou usando a prótese, o olhar do outro é diferente, menos carregado de piedade ou medo. Sinto-me bem melhor”, relata.
Qualidade de Vida
![[ Molde de uma protese ]](img/protese03.jpg)
Pedro El Daher Neto, fisioterapeuta, diz ser o aspecto psicológico a maior das barreiras a serem rompidas por alguém que necessita de uma prótese. “Há a carga do processo de mutilação, que normalmente precisa ser superada. É rompendo isso que se facilita a adaptação à prótese”, opina. Para tanto, El Daher Neto recomenda que essa etapa seja acompanhada por uma equipe multidisciplinar – composta por um fisioterapeuta, um especialista em medicina vascular, um ortopedista e um psicólogo. “Se possível, o trabalho para a colocação da prótese deve ser pré-cirúrgico, deixando claro a essa pessoa que haverá um processo de adaptação e uma mudança na sua vida”. O caminho, segundo o fisioterapeuta, exige muita perseverança, por não ser fácil. “A prótese, a princípio, incomoda, e os pontos de apoio chegam a causar dor, pode chamar a atenção das pessoas e caleja o corpo. A insistência é fundamental para se retomar a rotina”, declara. Essa etapa, conforme a situação, pode levar de um a um ano e meio.
Os avanços da ciência têm possibilitado que esse sofrimento – caso se faça presente – seja minimizado. Pesquisas que usam materiais modernos, como pernas mecânicas com sensores de força e movidas a eletricidade, surgem ao lado de materiais que simulam perfeitamente a pele humana, incluindo texturas e tonalidades. “Independente desses aspectos, é importante que o trabalho para implantação da primeira prótese seja feito da maneira certa. Se ela for imperfeita, dificilmente a pessoa voltará a usar o aparelho”, avalia El Daher Neto, lembrando que o processo de fabricação deve ser individualizado, respeitando as possibilidades do corpo de cada um.
A expectativa da pessoa que passou pela mutilação deve ser otimista. Tanto o fisioterapeuta – pelo que observou – como Flávio Lúcio – pelo que viveu – afirmam não ser possível levar a mesma vida de antes ao ocorrido. “Dificilmente uma pessoa se recupera 100%. Mas a pessoa deve ser preparada, e realizar a melhor recuperação possível para sua vida. Eu nunca passei por uma situação dessas, porém, sei que podem se abrir novas perspectivas para o indivíduo. Isso é ser realista. Assim como saber que não será a prótese que limitará o paciente. Se isso ocorrer é ele mesmo quem se limita”, destaca El Daher Neto.
Já Flávio Lúcio lembra que algumas mudanças são necessárias. Em sua residência, por exemplo, filtros oferecem água gelada, controles remotos em portões e telefone com viva voz são adaptações realizadas para facilitar o seu cotidiano. “Com a mão mecânica eu consigo escovar meus dentes, ir ao banheiro, mudar as teclas do canal no controle remoto, carregar uma lata de refrigerante ou uma sacola pequena, trabalhar no computador. Sem a prótese abro portões eletrônicos, embarco em ônibus sem acompanhante, cuido do meu filho, mantenho uma vida sexual ativa, enfim”, enumera. Lúcio reconhece, ainda, que o Brasil não está preparado para atender de maneira adequada os deficientes físicos, mas cobra uma mudança de postura da sociedade para que isso ocorra.
“Para mudar as políticas de atendimento aos deficientes, é preciso primeiro mudar a mentalidade das pessoas. A iniciativa privada está se adaptando para atender o deficiente, e com isso obtém retorno imediato. Quando não se consegue os direitos amigavelmente, é preciso lutar por eles. Sei do caso de uma mãe que recorreu à Justiça para conseguir um desconto na compra de um carro para o seu filho deficiente”, relata. Parte desses objetivos é perseguida através de trabalhos recentes de Flávio Lúcio, que mantém o site Amputados Vencedores (http://www.amputadosvencedores.com.br), elaborado após ele conhecer as dificuldades enfrentadas para que os deficientes tenham seus direitos respeitados. “Eu queria auxiliar de alguma forma: passando dicas, leis, depoimentos de incentivo e fotos que ajudam no dia-a-dia. Há cinco anos gastei R$ 15 mil em uma prótese que nunca usei. Isto me deixou revoltado. Então tenho indicado profissionais competentes para este fim”, diz Lúcio, ao afirmar que o site chega a ter 1,5 mil visitas por semana. “Muitas pessoas me procuram através do site. Recebo cerca de 300 e-mails de pessoas e grupos, os quais participo e recomendo profissionais ou auxílio”.
Quanto à postura diante da sociedade, Lúcio é incisivo. “Cada vez mais temos de sair de casa e ocupar os mais diferentes espaços. Mostrar que não somos inválidos, e temos muito a oferecer às pessoas que se julgam ‘normais’. Para quem ainda não usa prótese, recomendo que vá atrás de seus direitos na cidade onde reside. Tente se adequar à vida dentro de suas possibilidades e continue vivendo. Nós devemos ser os primeiros a mudar a nossa maneira de encarar a vida de deficiente físico. Muitos duvidam da minha capacidade de trabalhar no computador sem ter os dois braços. Mas sou outra pessoa desde que passei a usar a internet. Fiz alguns sites que podem demonstrar minha capacidade”, completa. Flávio Lúcio, assim como milhares de brasileiros que diariamente encaram olhares e dificuldades, é a prova viva de que é possível recomeçar, que a vida não pára e, principalmente, que as pessoas são muito mais do que os seus corpos aparentam limitar.
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