A corrida para o futuro
Novas próteses revolucionam a vida de pessoas que passaram pelo drama de uma amputação. A próxima etapa é a perna biônica.
05/09/2004
Ana Paula Buchalla
O atleta americano Marlon Shirley, de 26 anos, faz 100 metros rasos em impressionantes 10 segundos e 97 centésimos de segundo. É pouco mais de 1 segundo atrás do recordista mundial da prova, o também americano Tim Montgomery, dono da marca de 9 segundos e 78 centésimos de segundo. Um segundo de diferença em uma prova olímpica costuma ser uma eternidade. Mas não nesse caso: Marlon Shirley possui uma perna mecânica; Tim Montgomery tem as duas pernas perfeitamente normais. Medalha de ouro nos Jogos Paraolímpicos de Sydney, em 2000, Marlon, ainda criança, teve parte da perna esquerda decepada em um acidente com um cortador de grama. O sucesso nas pistas se deve principalmente ao seu incrível poder de superação. Mas a seu favor está também uma nova geração de próteses artificiais, que vem revolucionando o conceito de reabilitação.
As novas próteses são de fibra de carbono, um material mais leve, resistente e flexível. Além disso, elas podem contar com um sistema de estimulação eletrônica, que permite à prótese de uma perna, por exemplo, acompanhar a passada da outra perna com intensidade e ritmo idênticos. A programação é feita sob medida para cada usuário. Muitas dessas próteses poderão ser vistas durante as Paraolimpíadas de Atenas, de 17 a 28 de setembro. Entre os 4 000 esportistas, de 145 países, estará Marlon Shirley - com um modelo ainda mais moderno do que aquele que utilizou na competição de 2000.
"As próteses dos atletas estão para as comuns como os carros de Fórmula 1 para a indústria automobilística", diz Jairo Blumenthal, consultor internacional da Ossur, empresa islandesa líder em tecnologia de fabricação de próteses. "Os avanços e as inovações sempre acabam beneficiando os outros usuários." O estudante de fisioterapia Rodrigo Jeremias de Souza, de 30 anos, é um desses beneficiários. Graças a uma prótese de fibra de carbono com encaixe de silicone e pé flexível, ele diz levar uma vida normal. Rodrigo perdeu parte da perna esquerda em 1997, por causa de um acidente de moto. O dado surpreendente é que, ao contrário do que se imagina, a maior parte das amputações não decorre de acidentes ou guerras. Na verdade, esses eventos representam pouco mais de 10% dos casos. Cerca de 40% das amputações são seqüelas de doenças cardiovasculares, 34% de diabetes e 16% de cânceres.
Há próteses com revestimento de silicone que imitam a pele nos mínimos detalhes - algumas até exibem veias. Mas a principal preocupação é mesmo com a funcionalidade. Embora tenham sido obtidos grandes avanços no que se refere à reprodução da mecânica do movimento, ainda permanece um desafio imitar exatamente a forma como se processa uma caminhada - já que, para dar um simples passo, uma série de músculos e articulações é usada. A grande promessa nesse sentido está em fase final de testes. Trata-se da primeira perna biônica, que dispõe de um pequeno motor para substituir os músculos amputados. Esse motor é controlado por um computador, que mede 1 000 vezes por segundo a intensidade dos movimentos do usuário. Com a perna biônica, dizem seus idealizadores, a pessoa conseguirá andar sem muito esforço, além de subir e descer escadas normalmente. As próteses atuais, embora muito superiores às antigas, ainda exigem muita energia do amputado - em alguns casos, uma força duas vezes e meia maior do que o normal. A conseqüência disso são problemas de coluna, dores nas costas, cansaço e até lesões na pele. A perna biônica deve chegar ao mercado dentro de poucos meses.
Os pesquisadores ainda estão longe de chegar a uma prótese que simule com precisão todos os movimentos da mão. Com 27 ossos, 38 músculos e uma infinidade de terminações nervosas, a mão é extremamente rica em movimentos. As próteses mais avançadas são as mioelétricas, que, ao captar e interpretar os estímulos elétricos dos músculos do braço, podem abrir e fechar. No Brasil, o pesquisador Fransérgio Leite da Cunha, da Universidade de São Paulo, campus de São Carlos, desenvolveu um protótipo que pode ser o ponto de partida para uma mão artificial com movimentos mais naturais e também com alguma sensibilidade ao toque. O protótipo já foi patenteado e está à espera de alguém que se interesse em torná-lo viável em escala industrial.
O mais rápido do mundo
Aos 26 anos, o americano Marlon Shirley sonha em se tornar piloto de avião. Em breve ele terminará o curso de especialização em tecnologia de vôo. Esse não é, porém, o único desafio que Marlon se impôs. Na infância, ele perdeu parte da perna esquerda em um acidente com um cortador de grama. Mesmo assim, decidiu que seria um atleta. Hoje, com a ajuda de uma prótese de última geração, Marlon se tornou o primeiro amputado a quebrar a barreira dos 11 segundos na prova dos 100 metros rasos
Voando alto
O americano Jeff Skiba nasceu com um defeito e teve de amputar a perna esquerda do joelho para baixo quando tinha apenas 10 meses. Ele nunca se deixou abater pelo problema. Tanto que hoje, aos 20 anos, Skiba é o recordista mundial de salto em altura em competições para atletas portadores de deficiências. Sua melhor marca: 2,09 metros. É uma conquista que ele deve muito à obstinação em superar limites, mas também a uma prótese de última geração, que é recoberta por um silicone especial que imita a pele humana
O ex-sedentário
Vítima de um acidente de moto, em 1997, o gaúcho Rodrigo Jeremias de Souza, de 30 anos, perdeu a perna esquerda do joelho para baixo. Ele testou várias próteses, até chegar a um modelo ultramoderno. A prótese de fibra de carbono com encaixe de silicone e pé flexível dá a Rodrigo mobilidade suficiente para qualquer atividade física. Antes do acidente, Rodrigo era sedentário. Hoje, pratica skate, anda de bicicleta, joga bola e participa de competições de atletismo em que os participantes não têm nenhuma deficiência.
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