Entrevista: Guilherme Lira
O inimigo dos obstáculos.
Analista de sistemas que se dedica a projetos para facilitar a vida de quem tem deficiência e fundador da Acessibilidade Brasil
O analista de sistemas Guilherme Lira tem 51 anos e há oito se dedica a projetos para facilitar a vida e o acesso de pessoas com deficiência ao mundo virtual. Eliminar barreiras é o trabalho dele. Em 2002, fundou a Acessibilidade Brasil, uma organização da sem fins lucrativos (Oscip) que emprega 12 pessoas especializadas (entre elas, cinco com deficiência) e é autor de idéias que prometem revolucionar a acessibilidade no país. Apesar de desenvolver tecnologia de ponta com possibilidades de competição no mercado externo, a Acessibilidade Brasil enfrenta dificuldades para manter a equipe técnica e precisa consolidar parcerias que garantam a sobrevivência e a continuidade dos projetos. Em entrevista ao Correio, Guilherme Lira conta porque se apaixonou pela área da acessibilidade e garante que o mercado para profissionais capacitados nesta área é cada vez mais promissor.
Quais são as peculiaridades de trabalhar com acessibilidade?
Guilherme Lira: É muito legal, temos menos dificuldade do que nas outras áreas. Existe muita demanda. Por isso, tudo o que se faz é consumido. As pessoas são muito excluídas e quando você faz alguma coisa que possa equiparar as oportunidades, isso as traz para perto de você. Meu motivador é ver as pessoas usando o que fazemos. Me sinto bem comigo mesmo.
Como a Acessibilidade Brasil se sustenta?
«G.L.:»Nossa receita vem dos projetos que vendemos para o governo e dos cursos que ministramos para capacitar desenvolvedores a fazer sites acessíveis. Mas nossa maior fonte de renda é a adequação de sites já existentes e o desenvolvimento de novos projetos, como o tradutor para a Língua Brasileira de Sinais. O projeto está sendo avaliado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pode estar disponível em todas as televisões do Brasil quando chegar às casas a TV Digital. Antes disso, poderá ser usado em hospitais e salas de aula.
Trabalhar com o terceiro setor compensa financeiramente?
«G.L.:» Em termos de salário não é legal, ganho menos agora. Mas peguei 'o vírus'(de trabalhar com pessoas com deficiência) e não saio mais dessa área; é muito gratificante. Existe um potencial enorme, temos 24 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, portanto qualquer projeto que fizermos para este público atinge quase 100 milhões de brasileiros (se levarmos em conta que um deficiente está inserido numa família média brasileira, de quatro pessoas).Se essas pessoas não forem educadas, não podem participar da sociedade. Hoje muitas delas são improdutivas e por isso representam peso para o Estado e para as suas famílias.
Em Portugal, a exigência de melhoria da acessibilidade na internet veio da sociedade civil. E no Brasil, de onde estão partindo as pressões para a
acessibilidade?
«G.L.:» Existe uma pressão constante da sociedade em prol da acessibilidade. Hoje temos 10 mil cegos que usam computador. Toda vez que o governo coloca um site não acessível no ar recebe um monte de reclamações de pessoas com deficiência. A diferença é que em Portugal este movimento foi mais organizado.
Quais são as possibilidades profissionais e econômicas que a inclusão
digital das pessoas com deficiência representa?
«G.L.:» Em todas as áreas do mercado serão abertas oportunidades de trabalho. As pessoas que não podem se locomover poderão ter acesso às informações na internet e poderão também ser capacitados por meio da web. Para quem trabalha com informática o mercado também se abre, pois há milhares de tecnologias disponíveis que precisam ser utilizadas e empresas que podem investir na área de acessibilidade. Um desenvolvedor capacitado para construir um site acessível tem um diferencial que outros não tem.
Inovações
Conheça invenções da Acessibilidade Brasil que já estão ou ainda vão mudar a forma como os portadores de deficiência se movimentam pela internet:
-Tradutor do português para Libras
Projeto iniciado em 2002, o tradutor passa informações do português para a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e poderá ser usado em salas de aula, hospitais, televisões e na construção de livros didáticos visuais. O conteúdo de uma conversa ou um programa de TV podem ser traduzidos em tempo real por uma intérprete virtual chamada Ana.
-Impressora Braille
O projeto consiste em desenvolver uma máquina de baixo custo que 'imprima' em braille, adaptada a partir de uma impressora matricial comum.
-DaSilva
O programa avalia a acessibilidade de sites e páginas da web, de acordo com os princípios da W3C/WAI. Ao ser acionado pela internet, aponta erros - como um imagem não descrita por textos - ou qualquer outro elemento fora das regras de acessibilidade. Mais de 13 mil sites já foram avaliados pela DaSilva e os que passam no teste recebem o selo de acessibilidade.
Para aprender
O cursos de acessibilidade para web-designers, desenvolvedores e gestores de sites na internet podem ser ministrados sob encomenda em todo o Brasil ou na Acessibilidade Brasil (Rio de Janeiro). As inscrições podem ser feitas no próprio site da Acessibilidade Brasil:
www.acessobrasil.org.br/
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